A nação que deu origem à Bíblia e ao judaísmo (antigos Israel e Judá), que serviu de base para o cristianismo e o islamismo, deveu suas existências a períodos anormais de "calmaria" e vácuos de poder na região onde existiram.
Assim como os cosmólogos atribuem a existência da vida na Terra a períodos anormais de calmaria cósmica, com nosso sistema solar trafegando por regiões limpas e tranquilas da galáxia e do cosmos, podemos atribuir o surgimento da Bíblia e de toda a tradição javista e judaica, com seu estranho monoteísmo, seu conservadorismo moral exagerado e incomum e seu favorecimento ideológico de pobres, humildes e fracos, a períodos de vácuos de poder no Levante que permitiram o surgimento de pequenos reinos.
Antes daquela região virar Israel, até mais ou menos 1200, ela era dominada pelo Egito (Novo Império). Ali existiam várias cidade-estados canaanitas vassalas do Egito, que estendeu seu domínio até o Rio Eufrates pra deixar sua fronteira oriental mais segura (trauma da invasão dos hicsos), e também pra criar um tampão entre o Egito e o Império Hitita, seu principal rival.
Após 1200, toda a região do Levante, Fenícia e Egito foi alvo de uma série de invasões pelos chamados "povos do mar", que causaram tanta destruição que desmantelaram todos os pequenos estados, destruíram cidades, deram fim no comércio e forçaram a uma ruralização maior da região. O Egito enfraqueceu para nunca mais se recuperar.
Na esteira da devastação dos povos do mar, os habitantes pastores das montanhas do Levante dominaram todo o território, subjugaram o que sobrou dos canaanitas das planícies e criaram mais tarde os reinos de Israel e Judá. Outros reinos pequenos surgiram também na mesma época, como Moabe, Edom, Amom, Aram-Damasco (Síria) e a Pentápolis Filistéia (remanescente dos povos do mar).
Os reinos de Israel e Judá cresceram, prosperaram com o comércio (região altamente estratégica), criaram cortes, colocaram suas tradições orais em forma escrita, fundaram templos e palácios. Tudo parecia ir bem até que o adormecido povo Assírio ressurgiu e recomeçou sua expansão, já nos anos 700 a.C. Os assírios engoliram todos esses pequenos reinos, anexando-os a seu império, trocando as populações de lugar e espalhando o terror. A política desses pequenos reinos passou a ser uma simples decisão binária: se submeter pacificamente aos assírios, pagando tributos, evitando ser devastado e deportado, e se aproveitando da Pax Assíria pra prosperar com o comércio, ou arriscar tudo em rebeliões, evitando pagar tributos mas estando sujeito a ser devastado e deportado.
Os reis de Israel e Judá alternavam-se nessas políticas. Alguns reis mais sensatos se submetiam voluntariamente (a maioria deles), mas vez ou outra algum rei insensato (como o rei Ezequias), com a cabeça cheia de fanatismo religioso, se arriscava a se rebelar, recebia uma expedição punitiva assíria, o povo se fudia, os grupos anti-assírios perdiam força e reis pró-submissão apareciam, e ficava nesse ciclo.
O reino de Israel, maior e mais rico, nunca aceitou de bom grado se submeter à Assíria. Sempre participou de alianças militares (como na batalha de Qarqar). Mas a Assíria prevaleceu, conquistou os arredores e enfim, em 722, conquistou Samaria e deu fim no Reino de Israel. O reino de Judá, por ser mais fraco, pobre e isolado, aceitou mais facilmente se submeter pacificamente à Assíria, por isso durou mais tempo.
Mas a destruição do Reino de Israel e a sobrevivência do Reino de Judá trouxe consequências cruciais para a criação do javismo, deuteronomismo e da Bíblia:
- Vários israelitas sobreviventes imigraram para o Reino de Judá, fazendo sua população crescer, e este prosperar mais e mais. A renda do Templo de Javé em Jerusalém aumentou pra caralho. Isso fortaleceu os sacerdotes javistas.
- Surgiu a idéia de que o reino de Judá era sobrevivente porque seus reis forçavam mais o culto exclusivo à Javé. Os reis de Israel eram mais sincréticos e tolerantes do pontod e vista religioso, os de Judá menos, então os sacerdotes javistas começaram a propagar a idéia de que Javé salvava e protegia Judá devido a isso.
Surgiu então a idéia da "aliança" entre Javé e o povo hebreu. Essa ideologia afirmava que no passado mítico, os hebreus haviam sido escolhidos por Javé pra serem o seu povo e pra prestarem culto, ofertas e sacrifícios apenas a Javé e a nenhum outro deus (Baal, Astarot, Moloch, Azazel, etc). Em troca, Javé protegeria o povo hebreu contra seus inimigos. Os hebreus do norte teriam descumprido sua parte no acordo, adorando outros deuses, por isso foram devastados e deportados pelos assírios. Os judaicos, ao contrário, haviam cumprido sua parte, por isso sobreviviam, e deveriam continuar cumprindo pra continuarem em segurança. Essa ideologia começou a ganhar adeptos e é a origem de toda a linha de argumentação e teologia que chegou até nós nos textos do Velho Testamento. O culto exclusivo a Javé era do interesse dos sacerdotes, pois aumentaria a quantidade de ofertas recebidas.
Essa ideologia ganhou adeptos. É bom ressaltar que Javé sempre foi o deus nacional de Judá e que todos os reis eram devotos dele. Mas esse exclusivismo doentio não existia antes, foi criado depois. Os reis judaicos costumavam tolerar e praticar o "sincretismo", que era a forma popular de culto.
Pois bem, Ezequias foi o primeiro rei judaico a aderir a esse exclusivismo javista. Os sacerdotes e profetas javistas fizeram a sua cabeça, convenceram-no de que Javé os protegeria dos assírios se ele pusesse em prática esse exclusivismo religioso. Ezequias então iniciou um expurgo pesado contra todos os cultos não-javistas. Após pôr em prática esse expurgo, acreditando estar agora "imune", parou de pagar tributos e se rebelou contra a Assíria. A resposta não tardou. Os assírios atacaram e devastaram toda a região, reduziram Judá a uma pequena área e puseram jerusalém sob cerco, Só não conseguiram completar porque tiveram que se retirar pra resolverem revoltas em outras partes do império, mas Ezequias se rendeu e pagou tributo aumentado, com um território menor.
Aqui o relato dos assírios sobre a campanha contra Judá, preservado nas ruínas de Nínive:
"
Quanto a Ezequias, o judaico, ele não se submeteu ao meu jugo. Eu montei cerco em 46 de suas cidades fortificadas e em incontáveis pequenas aldeias; a tudo conquistei usando rampas de acesso que nos colocaram perto das muralhas (...). Eu expulsei 200.150 pessoas, jovens e velhos, homens e mulheres, cavalos, mulas, jumentos, camelos, gado grande e pequeno além da conta, e a tudo considerei como pilhagem de guerra. Ele mesmo eu o fiz prisioneiro em Jerusalém, na sua residência real, como um pássaro numa gaiola. (...) Suas cidades que eu saqueei, eu as tomei de seu país e as dei todas a Motinti, rei de Asdode, a Padi, rei de Eglon, e a Sillibel, rei de Gaza. Dessa maneira, eu reduzi seu país, mas ainda aumentei meu tributo".
O javismo perdeu força. Os sucessores de Ezequias voltaram a pagar tributos e a serem sincréticos (para a fúria do escritor deuteronomista bíblico). Armaram o assassinato do neto de Ezequias (Amon), colocaram seu filho de 8 anos (Josias) no trono, fizeram uma lavagem cerebral plena e completa nele, fazendo dele o rei judaico que tentou com mais afinco forçar o culto exclusivista a Javé.
No reino de Josias, a maior parte dos escritos que chegaram até nós foram feitos (história deuteronomista). Os sacerdotes forjaram um "livro da lei", disseram que estava perdido no templo desde a época mítica, e Josias acreditou (ou ele próprio pode ter participado da forja). A maioria dos costumes religiosos judaicos foram inventados por essa casta de sacerdotes, que escreveram textos e mais textos detalhando rituais de "pureza", de sacrifício, de santidade, etc Esses textos formam o core do Pentateuco. Por causa disso (clérigos escrevendo leis de pureza), a religião judaica se tornou a mais moralmente conservadora religião conhecida, e o cristianismo e islamismo herdaram esse conservadorismo e anti-sexualismo extremos, bem diferente dos demais povos pagãos.
Pra completar, bem durante o reinado de Josias, uma coalizão formada pelos medos, babilônios e elamitas derrotou os assírios e destruiu Nínive (612 a.C). Isso pareceu um cumprimento espetacular por parte de Javé de sua promessa de proteger Judá, em resposta ao zelo de Josias pela pureza e exclusivismo religiosos. Aí os javistas se empolgaram!
A queda da Assíria deixou um vácuo de poder no norte, e agora Josias ambicionava anexar essas terras ao seu reino, formando um mítico Reino de Israel Unido. Para dar apoio moral a essa empreitada, foram escritos o Livro de Josué (que descreve uma mítica conquista de Canaã por um povo hebreu unido, sem sofrer nenhuma derrota exceto quando pecavam, liderados por um homem quase xará de Josias, Josué). A história deuteronomista embelezou e exagerou as qualidades dos reinos de Davi e Salomão, fazendo-os parecer maiores e melhores do que foram na realidade. Ao mesmo tempo a história deuteronomista tratou de denegrir a imagem dos reis amrides (Onri, Acabe e seus filhos), que a arqueologia mostra ter sido os reis mais poderosos e bem sucedidos de Israel, mas que eram sincretistas, e de apagar a grandeza de Jeroboão II (o rei de Israel que mais estendeu a fronteira). Acrescentaram uma suposta promessa de Javé a Davi de que sua dinastia duraria "para sempre", e etc.
Mas quando tudo tava pronto e escrito, o Faraó Neco subiu para tentar bloquear o avanço dos babilônios contra o que restou dos assírios. Josias tentou se meter e acabou morto. Não se sabe se Josias tentou enfrentar o faraó em batalha (improvável) ou se o faraó foi "tomar posse" da região deixada pelos assírios, convocou os reis locais para prestarem juramento de vassalagem, achou Josias não confiável e o eliminou.
De qualquer forma, esse pequeno intervalo de vácuo de poder possibilitou a criação de toda uma mitologia, teologia, moral e literatura javista que foi preservada e chegou até nós através da Bíblia influenciando todo o Ocidente.
TL:DR; Os vácuos de poder no Levante criaram uma dinâmica política. Essa dinâmica, em algum momento, foi interpretada como sendo a vontade e as ações de um deus (Javé), criando todo um movimento, literatura, moral e teologia que chegaram até nós e moldaram nossa sociedade.
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