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A Máfia da Igreja Universal e um Compilado de seus Crimes, Acusações e Denúncias

Oi!! Fiz esse texto para mostrar a máfia que é a Igreja Universal do Reino de Deus. Todas as fontes serão disponibilizadas nos links e no final da postagem. Tem um TL;DR no final também. O propósito desse texto é informar quem tá por fora dessas coisas, ok? Incentivo vocês a pesquisarem por vontade própria, caso duvidarem de alguma parte. Adianto que apenas algumas frases e parágrafos foram escritos por mim, a maioria copiei de sites de notícia confiáveis. Apenas organizei tudo num dossiê e interliguei os fatos
Por favor, leiam inteiro e vejam como as coisas se conectam.
Fiz isso porque tava sem nada pra fazer mesmo haha.
INTRODUÇÃO
  1. A Igreja Universal na década de 1980 precisava de meios de comunicação para espalhar suas propagandas. Assim, rádios e horários de TVs foram comprados para estabelecer o domínio deles. Em 1989, a IURD adquire a Rede Record por 45 milhões de dólares, passando a controlar 30 estações de rádio, dois jornais e uma revista.
  2. Em julho de 1999 foi noticiado que a Polícia Federal apurava se a Igreja Universal tinha empresas em paraísos fiscais, que estava em investigação desde 1995 na compra da Record Rio e chegaram a conclusão de que SIM, de fato, duas empresas remeteram pelo menos US$ 18 milhões de dólares para o Brasil, entre 1992 e 1994. O dinheiro entrou via Uruguai, e os dólares eram trocados por moeda brasileira. A TV Record Rio foi comprada com este dinheiro, além de emissoras de rádio e TV, imóveis e até uma aeronave. As duas empresas eram: Investholding e Cableinvest.
  3. A Investholding está registrada em Grand Cayman (Ilhas Cayman, no Caribe), enquanto a Cableinvest tem registro na ilha de Jersey (Channel Islands), no Canal da Mancha. As ilhas são paraísos fiscais do Reino Unido. As duas offshore (as subsidiárias criadas em paraísos fiscais para fugir da cobrança de impostos) enviaram dinheiro ao Brasil, por meio de operações irregulares, para a conta bancária de bispos da Universal e também de “laranjas". As remessas e recebimentos totalizam US$ 18 milhões (R$ 44,6 milhões) e comprovariam a evasão de divisas.
  4. Investholding e Cableinvest são sócias da Unimetro Empreendimentos, que a Universal usa para administrar imóveis. Portanto, os imóveis comprados pela igreja são, pelo menos em parte, pagos com dinheiro vindo de paraísos fiscais.
  5. De acordo com o Banco Central, a Investholding é também acionista da financeira Credinvest - Crédito, Financiamento e Investimento, de São Paulo - que também pertence à Igreja Universal.
  6. Investholding e a Cableinvest são acionistas indiretas de uma outra empresa da Universal, a Cremo Empreendimentos, cuja atividade, definida na Junta Comercial de São Paulo, é a de prestar "serviços auxiliares a empresas, pessoas e entidades". A Cremo funciona no mesmo local (um edifício de 12 andares na alameda Ministro Rocha Azevedo 395, Jardins, em São Paulo) da Credinvest e da Rede Família. Seus sócios diretos são o bispo João Batista Ramos (lembrem deste nome!) e a Unimetro, da qual Investholding e Cableinvest fazem parte. A empresa Cremo importou o jato (Citation 525, da Cessna) usado pelos executivos da TV Record. A transferência da aeronave para a TV Record foi feita em 1997, segundo confirma o DAC (Departamento de Aviação Civil). A transação foi registrada em cartório por R$ 2,5 milhões.
  7. Em 2005 a revista ISTOÉ foi atrás disso e concluiu o cenário**. Plot Twist:** Por trás da operação em Cayman estaria Marcelo Crivella, filho de Matilde Bezerra, irmã de Edir Macedo. Sim, o mesmo que hoje é prefeito de RJ. Óbvio que ele negou envolvimento.
PARTE 1
  1. Em 1992, o Ministério Público denunciou Edir Macedo por "delitos de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular". Ele ficou preso por 15 dias, mas livrou-se das acusações e investiu na expansão da Record.
  2. Em setembro de 2011, o Ministério Público Federal denuncia Edir Macedo e mais três por evasão de divisas, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, falsidade ideológica e estelionato contra fiéis para a obtenção de recursos para a IURD. João Batista Ramos da Silva, o bispo Paulo Roberto Gomes da Conceição, e a diretora financeira Alba Maria Silva da Costa, foram uma quadrilha para lavar dinheiro da IURD, remetido ilegalmente do Brasil para os Estados Unidos por meio de uma casa de câmbio paulista, entre 1999 e 2005.
  3. Apesar de os fatos denunciados remontarem ao período entre 1999 e 2005, após a tipificação, no Brasil, do crime de lavagem de dinheiro, o que ocorreu em março de 1998, a denúncia contextualiza e explica todos os antecedentes da montagem do esquema milionário e escuso de envio de dinheiro para o exterior e a criação de empresas de fachada, cujos recursos foram empregados na aquisição de diversos meios de comunicação, usados como plataforma para arrebanhar fiéis.
  4. A denúncia demonstra que a IURD só declara ao Fisco parte do que arrecada junto aos fiéis, apesar de a Igreja ter imunidade tributária. Somente entre 2003 e 2006, a Universal declarou ter recebido pouco mais de R$ 5 bilhões em doações, mas, segundo testemunhas, esse valor pode ser bem maior
  5. Vale mencionar que, em 2007, a Polícia Federal investigou Edir e a compra da Record. Deu em nada.
PARTE 2
  1. Waldir Abrão, o ex-diretor da IURD e ex-vereador na cidade do Rio de Janeiro.
  2. Acompanhado de um advogado e testemunhas, Abrão lavrou um documento de 23 páginas no dia 18 de novembro no escritório Marzagão, Amaral e Leal Advogados Associados, de São Paulo; informando que os dízimos e doações recebidos dos fiéis eram entregues diretamente na tesouraria da IURD, que depositava na conta da Igreja apenas 10% do valor arrecadado, sendo o restante recolhido por doleiros e remetido para o Uruguai e outros paraísos fiscais. Waldir Abrão dizia ter atuado como laranja em empréstimos feitos pela Igreja. No documento, ele contou em detalhes como entrou na Igreja nos anos 70 pelas mãos do líder Edir Macedo, os métodos de arrecadação da igreja e a suposta falsificação de sua assinatura em inúmeros documentos. O Diretor da Igreja Universal do Reino de Deus entre 1981 e 1986 e vereador do Rio de Janeiro por três legislaturas, Waldir Abrão declarou ter sido usado como "laranja" - teve o nome usado sem consentimento pela igreja em 20 operações de empréstimos fictícios que trouxeram dinheiro do exterior para a aquisição de uma TV de Goiânia. Foi encontrado caído num corredor seis dias depois de ter registrado depoimento com acusações, com um ferimento na cabeça. Faleceu dois dias depois no hospital.
  3. Abrão anexou à declaração documentos que demonstram que, enquanto esteve ligado à igreja, ele realizou movimentações financeiras muito acima da sua capacidade. Por isso, foi autuado pela Receita Federal. No auto da Receita, Abrão aparece como tomador de 20 empréstimos, no valor de Cr$ 25 bilhões (aproximadamente R$ 7 milhões em valores atuais), assinados entre 1992 e 1993 com as empresas offshore Cableinvest e Investholding, sediadas nas Ilhas Cayman. Os empréstimos nunca foram pagos. Segundo Abrão, eram operações forjadas para internar dinheiro que havia saído do Brasil por meio de doleiros em operações de "dólar-cabo", um sistema clandestino de remessa de capitais.
PARTE 3
  1. Doleiros dizem que Igreja Universal enviou R$ 400 milhões ao exterior
  2. A Igreja Universal do Reino de Deus é acusada de ter enviado para o exterior cerca de R$ 5 milhões por mês entre 1995 e 2001 em remessas supostamente ilegais feitas por doleiros da casa de câmbio Diskline, o que faria o total chegar a cerca de R$ 400 milhões. A revelação foi feita por Cristina Marini, sócia da Diskline, que depôs ao Ministério Público Estadual e confirmou o que havia dito à Justiça Federal e à Promotoria da cidade de Nova York.
  3. NOVA YORK E O IURD: Justiça americana decidiu investigar a atividade da Igreja Universal nos Estados Unidos com base no pedido de cooperação internacional feito em novembro de 2009 por autoridades brasileiras. Em Nova York, eles foram investigados por suspeita de fraude e de desvio de recursos da igreja em território americano.
  4. Em 2011, o MPF pôde elucidar um dos mecanismos de remessa de doações de fiéis ao exterior, que ocorreu entre 1993 e 2005 por meio da Diskline Câmbio e Turismo Ltda, sediada em São Paulo e com filial no Rio.
  5. Em 1997, um dos sócios da Diskline diz ter estado em Nova York com o bispo Edir Macedo e este teria lhe pedido pessoalmente que estudasse outras formas de realizar operações estruturadas para remeter valores ao Exterior para que as operações tivessem “ar de legitimidade”. O bispo também teria mencionado que a Igreja pensava em abrir um banco no exterior.
  6. Entre o final de 1997 e o início de 1998, uma das sócias da Diskline assumiu a área operacional em São Paulo e recebia orientações de Alba Maria, que se apresentava como diretora do Banco de Crédito Metropolitano (posteriormente Credinvest), empresas do grupo IURD. As ordens de câmbio e de remessas para o exterior também partiam de Paulo Roberto.
  7. Segundo a denúncia, dirigidos por Edir Macedo, o presidente nacional da Igreja, João Batista, Alba e Paulo Roberto, definiram e orientaram as remessas ilícitas para as contas correntes da IURD no exterior, que receberam milhões de reais arrecadados junto aos fiéis da Igreja entre 1999 e 2005. As contas ficam em cinco bancos estrangeiros, todos localizados em Nova York.
PARTE 4
  1. Foi um escândalo de corrupção que estourou em 2006 devido à descoberta de uma quadrilha que tinha como objetivo desviar dinheiro público destinado à compra de ambulâncias.
  2. O Ministério Público Federal em São Paulo denunciou dez pessoas acusadas de envolvimento com a Máfia das Sanguessugas, entre elas quatro ex-deputados federais ligados à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Segundo o MPF, a Associação Beneficente Cristã (ABC)- fundada em 1994, e ligada à Igreja Universal, elaborou um procedimento licitatório fraudulento visando a aquisição de sete ambulâncias. Ainda de acordo com o MPF, a associação apresentou informações falsas ao Ministério da Saúde e direcionou as compras à empresas ligadas à Máfia das Sanguessugas.
  3. Segundo a MPF, a entidade (ABC) informou falsamente ser dedicada à saúde, que faria milhares de atendimentos por mês, possuiria diversos profissionais da área médica, além de leitos no SUS, o que justificaria o gasto com ambulâncias.
  4. Para obter os recursos, a ABC contou com a atuação dos ex-deputados federais Wagner Salustiano, Marcos Roberto Abramo, Bispo Vandeval e João Batista Ramos da Silva, todos da bancada evangélica e ligados à Igreja Universal do Reino de Deus, que apresentaram emendas que previam recursos para a compra dos veículos para a ABC. Fundada em 1994, a ABC era apresentada no site da Igreja como entidade sem fins lucrativos tendo como parceira a IURD. Sim, o mesmo João Batista Ramos da Silva citado anteriormente diversas vezes.
  5. Mas quem caralhos é João Batista Ramos da Silva?
  6. Foi diretor-presidente da Rede Record de Televisão Ltda (1992-1996), diretor-presidente da Rede Família de Comunicação Ltda (1998- 2002), e diretor-presidente da Rede Mulher de Televisão Ltda (1992-2002). Em 2001 filiou-se ao Partido da Frente Liberal (PFL), sendo eleito deputado federal um ano depois, com o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), da qual se tornou bispo. Durante sua legislatura envolveu-se em dois episódios de repercussão política: a apreensão de sete malas de dinheiro pela Polícia Federal (PF) no aeroporto de Brasília em 2005, e o esquema da venda superfaturada de ambulâncias (conhecido como máfia das sanguessugas), no ano de 2006.
  7. Detido no dia 11 de julho de 2005 no Aeroporto de Brasília – em um avião com destino à Goiânia –, com uma quantia superior a dez milhões de reais, informou à PF que os valores foram ofertados pelos fiéis, como dízimo, durante as comemorações dos 28 anos da IURD. No dia seguinte, 12 de julho de 2005, teve cancelada a sua filiação ao PFL. Neste mesmo ano filiou-se ao Partido Progressista (PP).
  8. O que diabos aconteceu com o Bispo João? Edir e João Batista não foram absolvidos nem condenados, uma vez que a juíza reconheceu a prescrição no caso deles.
PARTE 5
  1. O ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Alfredo Paullo, 49, revelou um esquema milionário da entidade para desviar recursos para a Europa e irrigar investimentos, com suposto conhecimento de Edir Macedo; pastores da Igreja eram acionados pela cúpula da instituição para transportar, de maneira irregular, recursos arrecadados na campanha da Fogueira Santa de Israel em **Angola. "**Uma campanha [de arrecadação] da Fogueira Santa de Israel em Angola girava em torno de 13 milhões de dólares ao ano. Desse total, de cinco a seis milhões eram levados a Portugal”, denunciou Alfredo Paulo. Ao chegar em Portugal, o dinheiro era trocado, às vezes por euro ou dólares, e distribuídos para outras filiadas da Universal ou, em alguns casos, aplicado na Record na Europa.
  2. De qualquer forma, ele garante que presenciou crimes e passou a ser perseguido pela Igreja Universal desde que decidiu denunciar o esquema.“Isso se chama evasão de divisas, isso é crime. Por isso, a cúpula da Universal tenta, de todas as formas, denegrir a minha imagem, para que minhas acusações caiam em descrédito.”
  3. Ele também disse que, na Europa, a IURD se chama “Centro de Ajuda Espiritual”, ou comunidade “Pare de Sofrer”, “justamente por causa da rejeição que existe à Igreja Universal e por causa de leis desses países que estão de olho na Igreja”, disparou. Ele explica que a igreja arrecadava mais dinheiro em Angola, e o dinheiro era repassado a Portugal, porque de lá ele poderia ser levado a outros países com menos burocracia. “A minha prova sou eu”, diz ele a Folha de S. Paulo. e ressalta que o histórico das contas está no banco BCP de Portugal.
-ANGOLA
  1. Em janeiro desse ano (2020) saiu a notícia de que a Igreja Universal seria expulsa de Angola. Por que?
  2. A instituição Igreja Universal vem sofrendo diversas denúncias de irregularidades e é acusada por pastores de tentar punir “rebeldes” que denunciaram as irregularidades da Igreja à Justiça angolana.
  3. O INAR é vinculado ao Ministério da Cultura da Angola e a expulsão da Igreja com punição está prevista na lei de Liberdade Religiosa aprovada em maio do ano passado (lei 12/19). Dois processos contra a IURD foram abertos pela Procuradoria-Geral da República da Angola. Um dos processos visa apurar denúncias de atos contra a integridade de religiosos angolanos, como vasectomia forçadas. O segundo, investiga denúncias sobre envio de dinheiro ao exterior ilegalmente
-VASECTOMIA
  1. Em 2019 foi noticiado que a Igreja Universal é condenada por obrigar pastores a fazer vasectomia, fato denunciado por ex-pastores. Segundo eles, a cirurgia implicaria mais facilidade na mudança para templos em outras cidades, visto que a IURD custeia a família dos religiosos.
-PORTUGAL
  1. Em 2017, a Universal foi investigada após uma denúncia de tráfico de crianças por uma rede televisiva portuguesa chamada TVI.
  2. A reportagem, chamada “O segredo dos Deuses”, afirma que os chamados “netos” de Edir Macedo seriam crianças roubadas e levadas a um orfanato ilegal mantido pela Universal.
  3. Segundo a TVI, a Igreja mantinha um lar de adoção ilegal na década de 1990, no qual famílias pobres deixavam as crianças, sem conhecimento da Justiça. As crianças, então, eram retiradas do país e registradas como filhos biológicos de bispos e pastores da igreja.
FONTES: Uol, The Guardian, Extra, Jornal O Globo, SENADO.LEG, EXAME.ABRIL, Revista Veja, Revista Folha, JusBrasilL, HuffPost Brasil, Estadão, MPF, Observatório da Imprensa, G1 Globo, Observador.PT, ISTOÉ, DCM Diário do Centro do Mundo, Folha de Londrina, Jornal Jurid, Portugal Digital, Intervozes, Universal.com, Wikipedia e Nobordersnotations.
Obs: Todas as notícias das fontes foram vistas, verificadas e comparadas com as de outros sites por mim, todas são confiáveis.

TL;DR: A Igreja Universal é uma máfia que pratica lavagem de dinheiro desde seus primórdios com a utilização de paraísos fiscais; é comandada por um possível sociopata; recorre à queima de arquivo quando a merda é jogada no ventilador; consegue manter-se impune mesmo diante de todas as acusações; muito possivelmente faz o uso do tráfico humano.

Atualização e edit do post: Os redditors u/MarceloPires , u/Hipocrisia_estafa e u/gabriel034 Deixaram vídeos a respeito de uma ótima reportagem da Globo onde Edir Macedo ensina os pastores a pedirem dinheiro. Link: https://www.youtube.com/watch?v=vWV18gxb5ZY
Para quem se interessar no documentário da TVI, aqui está . Detalhe: o próprio ex bispo Paulo Roberto ajudou o documentário e concedeu entrevistas à reportagem.

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Quais são as outras provas?

Sabemos que o Ivan levou o material que encontrou ao Ministério Público, o qual disse que a fita não tem relevância alguma, tendo em vista que a condenação dos réus se deu por várias outras provas. Disse que o Ministério Público tomou o cuidado de pouco mencionar o conteúdo das fitas cassetes, justamente para não macular todo o arsenal probatório utilizado na denúncia.
Proponho aqui um debate para discutirmos quais são essas outras provas mencionadas. Sei que tem muita gente que tem certeza da inocência dos acusados após o últimos episódio, especialmente por acreditar que a confissão para o grupo Águia seja a única "prova" contra eles. Isso tudo incentivado pelo trabalho bastante parcial do Ivan, que desde antes da fita aparecer já demonstrava sua opinião nas entrelinhas. Além disso, o Ivan acaba tirando várias conclusões de cunho inteiramente pessoais acerca da dinâmica dos fatos durante os interrogatórios policiais, ou seja, meras opiniões. Ele acaba não levando em conta diversos elementos que ele mesmo veiculou no seu podcast, como se tudo não importasse mais depois da constatação da tortura. Talvez haja clara influência de sua orientação política assumidamente de esquerda, como demonstra em seu podcast político. Isso infelizmente acaba por manchar o belíssimo trabalho desenvolvido até então, embora com várias ressalvas. Mas como não somos obrigado a concordar com as opiniões de viés claramente ideológico de Ivan, o qual não é policial, investigador, detetive, juiz, promotor, advogado ou mesmo jornalista, podemos analisar os casos de outra forma. Vamos aos pilares da acusação:
1 - Confissão de Oswaldo, Vicente e Davi na Delegacia de Polícia de Matinhos: as confissões são bastante detalhistas e, no geral, batem umas com as outras. Os depoimentos foram tomados perante o Delegado, Escrivão, testemunhas e dois Promotores de Justiça, Alcides Munhoz e Samir Baruk.
2 - Confissão no IML de Curitiba: trazidos à capital, diante de toda imprensa, todos mantém a mesma versão dada na Delegacia. Há vídeos destes momento, os quais foram amplamente divulgados.
3 - Em outros depoimentos e acareações dentro do presídio do Ahú, Oswaldo continua admitindo o crime e indicando os demais como coautores. Apenas durante seu interrogatório perante a juíza que Oswaldo passa a negar a prática do crime, todavia o faz apenas como negativa geral, sem explicitar o que foi que ocorreu e sem mencionar as torturas.
4- Alguidar encontrado na casa de Oswaldo, o qual submetido a exame pela perícia técnica e exame de DNA, tendo sido encontrado vestígios de sangue humano.
5 - Pote de vidro enterrado por Oswaldo na frente da Loja Berimbau, de Antônio Costa, no qual foi encontrado material identificado como sangue humano.
(Estas, para mim, são as provas mais contundentes para uma condenação. Vou transcrever aqui o que se encontra no laudo do instituto GENE, considerando que a Beatriz fala que não existe essa prova. "Verificou-se a presença de DNA de origem humana ou de primata no bloco de alvenaria contendo mancha aparentemente de sangue em forma de mão, no líquido encontrado em pote de barro e no alguidar de barro.
6 - Testemunho de Edésio, que diz ter visto os acusados encontrando a criança e a colocando no carro.
7 - Testemunho de Irineu, que, na sua primeira versão, diz ter visto os acusados chegando na data do crime para realizar um trabalho espiritual.
8 - Testemunho de Andrea Pereira Barros, que afirma que Oswaldo saiu no dia 07/04 na companhia de Vicente e Beatriz , às 19h30, trajados da maneira que costumavam usar quando realizavam rituais de corte (sacrifícios). Note-se que Beatriz diz que sequer tinha saído de casa neste dia e horário, enquanto Oswaldo e Vicente diziam estar comendo dobradinha.
9 - Além disso, temos todos os álibis dos acusados derrubados, como, por exemplo, alegarem ter comido, no dia do assassinato, dobradinha no restaurante "Samburá". O restaurante, todavia, não abria às segundas e terças e só servia dobradinha às quartas. Além disso, os álibis prof. Tristão e Paulinho do Atabaque relataram que nem estavam na cidade naquele dia. Beatriz alegou que na manhã em que o menino foi raptado estava na companhia de uma amiga denominada Eliana, a qual negou ter estado em companhia de Beatriz, pois tinha ido à Curitiba assistir à uma aula na faculdade. Celina, por sua vez, alegou que tinha uma consulta odontológica marcada em Curitiba, não tendo comparecido apenas por conta de um atraso no ferry boat. Todavia, o dentista negou que Celina tinha algum horário agendado com ele, tendo mencionado apenas que ela poderia passar no consultório quando quisesse.
10 - Um membro da família Abbage subornou e ameaçou a testemunha Edésio para que ele mentisse em juízo. Isso foi comprovado com áudio gravado por Edésio.
11 - Jorge Peres diz ter visto um pacote com mãos, cabelo e vísceras humanas no rio. Isso corrobora o fato de que Vicente teria dito à Bardelli para que dispensasse os restos mortais do menino em água corrente, ou seja, no rio que passa atrás da serraria.
Enfim, essas são as provas das quais me lembro, após pesquisa nos episódios anteriores e nos autos do processo. Acham que essas provas sozinhas bastariam para uma condenação? Todas elas seriam imprestáveis por conta da tortura sofrida pelos acusados? Vamos discutir.
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CARTA PARA MINHA RECAÍDA

Fiz o óbvio quando tive a notícia de que a minha vida iria permanecer da mesma forma que já estava por muitos anos: voltei a beber.
O mercado da esquina de casa continua quase sempre vazio pelas manhãs, geralmente por volta das 10 horas não há quase ninguém ali além dos funcionários, e eles quase não reparam nos nossos olhos de desespero quando estamos a um passo do fim. Não tem nada a ver com suicídio. Eu tô falando de uma morte espiritual.
Gostaria de deixar claro que não sou um homem muito religioso, as vezes em que orei pra Deus foram raras, uma delas foi quando me sequestraram numa das maiores favelas da cidade de São Paulo, e outra vez foi quando fiquei vomitando três dias seguidos por causa da bebida. E no quarto dia, fiz o óbvio: voltei a beber.
Dígito minha senha, pego minha garrafa e saio logo dali. Entre mortos e feridos, permaneço ainda intacto. Não que eu tenha raiva das pessoas, ou problemas com as pessoas, mas entenda de uma vez por todas, lidar com as pessoas é uma tarefa cansativa, que suga por completo qualquer emocional que eu ainda possa ter, e lidar com essa tarefa estando sóbrio é muito difícil. Por isso a bebida tem tanta importância. Pra isso que ela serve: lidar com as pessoas.
Escutem só.
Eu não sou o ser humano maravilhoso que muitos acham que sou. Eu sou lotado de defeitos e não vejo quase nenhuma qualidade. Eu me auto saboto incessantemente. Eu me olho no espelho e tenho nojo, não da minha aparência, mas da minha própria condição humana. Foram anos destrinchando o ser humano, e detectando problemas que nunca serão sanados, e percebendo o simples. Eu também sou assim. Sou um pedaço de merda ambulante.
Não são poucas as vezes em que pensei em colocar num papel os meus defeitos e utilizá-los de justificativa para atentar contra a minha própria vida. Tenho facilidade pra achar problemas nos outros, mas mais ainda pra achar problemas em mim.
Como disse, sobre o supermercado. Na época em que eu bebia todos os dias, ia muito lá, e reparava os horários mais vazios, e mesmo nos horários mais vazios, eu tinha que lidar com pessoas, e o pior de tudo era lidar com as atendentes de caixa e com os repositores. Eles sabiam que eu estava vivendo um inferno, e me olhavam torto. Eu estava sendo julgado, e antes que me digam que era coisa da minha cabeça, podem ter certeza de que era sim. Afinal de contas, beber mais de um litro de álcool por dia com certeza me deixava muito paranóico, enxergando coisas que não estavam acontecendo.
Mas a realidade é muitas vezes abstrata, e ela existe na medida em que a gente deixa ela existir.
As coisas só ganham força por que a gente deixa que elas ganhem.
E eu deixava ela existir daquele jeito.
Recentemente, abriram uma farmácia anexada ao mercado. Eu gostei, agora consigo comprar remédios pra cuidar da ressaca e/ou problemas do fígado. A atendente da farmácia me conhece pelo nome, chego lá já com a garrafa de bebida debaixo do braço. Ela sempre brinca e diz "É, parece que vai ter uma festa hoje, né?" Mal sabe ela que não há nada a festejar numa terça feira, 10h da manhã. Isso é alcoolismo raiz, meus amigos. É beber pra parar de tremer. É beber por que se precisa beber. É esquecer de todas as cobranças externas que possam vir a acontecer na vida de qualquer um. É um sentimento de liberdade misturado com uma sensação de aprisionamento.
Não que eu saiba exatamente tudo sobre o assunto. Mas sou entendido pois vivi na prática. Das bebedeiras caras em festas nos Jardins, às brigas por papelões e por espaços debaixo das marquises em dias de chuva, sempre mandando cachaça barata pra debaixo da goela.
Se você pensa já ter vivido um inferno, saiba que o capeta ainda nem sabe da sua existência.
Você é a mesma coisa que eu sou: insignificante. Mas talvez a sua presença na Terra seja necessária. Talvez haja algo a se fazer por aqui antes do fim. Antes do juízo final. Em que todos seremos julgados pelos nossos atos.
Enquanto isso, recomendo que faça aquilo que queira fazer, sem querer cagar regra na vida dos outros. Seja para si mesmo exatamente o contrário do que os outros são para você. Mostre pra todo mundo que o problema não está na individualidade de cada um, e sim na podridão de um todo. Do ser humano, a praga.
Do ser humano como uma praga. Sem predadores naturais. Se multiplicando de maneira desenfreada. Vivendo cada vez mais. Não feche os olhos. Há um problema. Um enorme problema. Abrace sua causa enquanto eu tô aqui, fazendo carinho na minha. E que toda a sorte do mundo possa nos faltar nos nossos piores momentos.
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Como tudo aconteceu (Na minha Cabeça)

Depois de ter ouvido todos os 24 episódios do Caso Evandro é impossível não formar uma narrativa própria na sua cabeça. Ao longo desses 24 episódios você transita entre a culpabilidade e inocência dos sete acusados. Impossível não, já que num caso tão conturbado quanto esse e com tantas variáveis fica difícil acreditar 100% em qualquer depoimento ou confissão. Pensei em esperar que todos os episódios saíssem antes de fazer esse post, mas aí lembrei que o Ivan mencionou que dará o seu parecer pessoal de como acha que as coisas aconteceram. Então para que não haja “Depois de ter ouvido fica fácil falar”, eu vou postar agora. Até para que eu não me influencie pela versão dele. Caso nos próximos episódios alguma coisa bombástica venha à tona e mude a minha opinião, eu irei colocar edits na minha postagem.
Só para que vocês entendam um pouco sobre mim venho de uma família umbandista e cresci entremeio sessões espiritas em casa, centros de umbanda e candomblé e “presenciei” sacrifícios de animais (Por ser pequeno na época, nunca me deixaram ver o ato, mas via o resultado nos dias seguintes. Como já ficou claro, as vísceras têm que ficar no alguidar por 3 dias antes de serem descartadas em água corrente, ou levadas a uma encruzilhada). Meu avô (Já falecido) era pai de santo e minha tia filha de santo e atendíamos apenas família e vizinhos próximos. Nunca tivemos um centro propriamente dito. E como isso já faz bastante tempo, obviamente algumas coisas me somem à memoria então fui pesquisar mais sobre o assunto.
Antes que eu comece, até para que vocês entendam um pouco melhor sobre as religiões Afro-Brasileiras, existem VÁRIAS vertentes. Sabe aquela coisa de brasileiro “gourmetizar” as coisas? (isso será importante na minha versão da história) Pois bem, com essas religiões não é diferente. Primariamente vieram da África com seus escravos TRÊS religiões, a Umbanda, a Quimbanda (ou Kimbanda) e o Candomblé. Sendo a umbanda e a quimbanda cultos semelhantes. Na “Umbanda Branca” temos o trivial de sessões espiritas, atendimento aos consulentes e o famoso passe (Algo apenas para dar uma paz de espirito a quem precisa, limpeza de aura e etc.) e oferendas à Yemanjá, Oxalá, Xangô, Ogum, Oxossi, Iori, Iorimá, que são as 7 linhas da umbanda. Na “Umbanda Negra” ou Quimbanda também há 7 linhas, todas chefiadas (encabeçadas) por diferentes Exus, que esses por sua vez em troca de sua sabedoria e conhecimento de outros Exus da gira (networking) pedem oferendas mais “caras”, oferendas de sacrifício de sangue. Dependendo do que lhes é pedido os tipos de oferenda variam desde uma simples galinha até humanos. Na África até hoje esses sacrifícios acontecem segundo o que pude encontrar (Não sei se é verdade). Eu poderia fazer um post apenas sobre isso, pois é uma assunto MUITO extenso e complexo. Pois bem, abaixo vocês podem conferir a minha versão do acontecido. Algumas coisas apenas os envolvidos sabem e ninguém NUNCA saberá a verdade.
Chega em Guaratuba no começo de Janeiro de 1992, o “Pai-de-Santo” e jogador de Búzios Osvaldo Marceneiro com sua então namorada Andrea Barros e os mesmos tentam estabelecer negócio na feira de artesanato no centro da cidade. Antes que os outros integrantes da feira se opusessem a permanecia de Osvaldo na feira, o mesmo conhece Beatriz Abagge que como declarou varias vezes gostava de misticismo e coisas do gênero. Após algumas leituras de Búzios os dois se tornaram próximos e assim começaram um relacionamento de amizade. Beatriz por sua vez leva seus pais a uma consulta em 29 de Janeiro de 1992.
Osvaldo por morar no imóvel de Carmelita Cristofolini, ficou sabendo do terreiro da Mae Hortência o qual Beatriz Abbage também frequentava. Carona vai e carona vem, já que Osvaldo não tinha carro (como declarou), os dois vão ficando cada vez mais próximos. Beatriz Abagge recém separada de seu noivo, estava obviamente em busca de respostas e um direcionamento em sua vida e recorreu a ajuda de Osvaldo nos búzios (Aquela coisa de mulher, “será que ele vai voltar”, “será que ele ainda gosta de mim” e etc.). Contundo Osvaldo oferece não apenas o consolo espiritual, mas também um consolo emocional e o que era amizade acaba se tornando um affair. Aí pronto, isso é o suficiente para que Beatriz comece mover montanhas por Osvaldo. Logo após isso os outros integrantes da feira de artesanato começam uma movimentação para que Osvaldo e Andrea sejam removidos da feira e com o apoio de Beatriz, Osvaldo vai à prefeitura de Guaratuba para pedir ao Prefeito Aldo Abagge que o conceda um alvará de funcionamento na Feira. Com isso Osvaldo conhece Davi Dos Santos Soares que era o Vice-Presidente do conselho dos artesãos e esses se tornam amigos. (Não sei ao certo, ou não me lembro de onde Vicente de Paula e Osvaldo se conhecem ou quando se conhecem). Pois bem, Osvaldo consegue a permissão para permanecer na feira lendo os seus Búzios.
Osvaldo, um jovem que na verdade era FILHO-de-Santo precisa se “firmar” para conseguir se tornar um Pai-de-santo propriamente dito e abrir o próprio Terreiro em Guaratuba com a ajuda de Beatriz Abagge. Osvaldo foi vulgarmente chamado de “pai-de-santo” por todos por ignorância dos que não conhecem como a religião de fato funciona. Só é considerado “Pai-de-Santo” quem tem um terreiro e passa por uma iniciação feita por um outro Pai-de-Santo que tem um terreiro em funcionamento. No caso da região de Guaratuba já existia um terreiro, o da Mãe Hortência, e por motivos não sabidos talvez a Mae Hortência não quis iniciar Osvaldo (O que já é um red flag). Pois bem, Osvaldo ambicioso e com sede de se estabelecer de vez em Guaratuba pois agora estava apaixonado por Beatriz vai atrás de informações para fazer a sua própria iniciação como Pai-de-Santo na umbanda. Entendam, para que alguém se torne Pai-de-Santo, o mesmo deve possuir amplo conhecimento sobre a religião, linhas de trabalhos, tipos de espirito, como proceder no caso de algo dar errado numa sessão, e principalmente, o quão forte o “cavalo” é, se aguenta a pressão imposta pelos espíritos. (Algo que não mencionei no texto acima sobre as religiões, é que Umbanda e Quimbanda se entrelaçam de uma maneira homogenia. Quem segue uma acaba seguindo a outra indiretamente, já que as duas juntas são o ponto de equilíbrio. Sendo uma sempre contraria à outra.).
Já envolvido com Vicente de Paula e Davi dos Santos Soares, Osvaldo começa a busca de sua primeira oferenda. Oferenda essa para se auto iniciar como Pai-de-Santo. Com isto, o menino Leandro Bossi desaparece em 15 de Fevereiro de 1992. Não temos detalhes sobre esse acontecido pois como tudo consta o menino Leandro continua “desaparecido”. Há “informações” de que o corpo havia sido descartado no mesmo rio onde o saco com partes de Evandro seriam encontrados mais adiante, porem nada de concreto foi constatado. Vale ressaltar que não acredito que Beatriz e Celina estejam envolvidas nesse desaparecimento, inclusive acho que Beatriz na época do ocorrido em Fevereiro não ficou sabendo que havia sido Osvaldo o responsável por isso, pois ate então os dois não eram tão próximos assim e obviamente Osvaldo não queria assustá-la. Pois entendam, somente quem segue a religião e a estuda, entende a razão do sacrifício e não encara isso como um crime, pois o está fazendo por suas crenças e o vê como necessário para obter o que almeja. (Não estou de maneira nenhuma defendendo a prática, e de fato apesar da religião requerer tais sacrifícios os mesmos não deverão ser praticados pois envolve o assassinato cruel de um semelhante. Aqui sem dúvida entra a linha tênue entre a crença e a moral do ser humano)
O menino Leandro continua desaparecido e ninguém tem pistas, apenas o relato de Diógenes de ter visto Leandro na garupa da moto com Osvaldo (?). Portanto esse acontecido segue em paralelo enquanto as vidas dos 7 acusados continuam e tudo está maravilhoso. Osvaldo, De Paula e Davi estava certos que nunca ninguém descobriria o que aconteceu, como de fato não descobriram, pois, o retrato do Menino Leandro Bossi continua na pagina do SECRIDE na seção de crianças desaparecidas, ou seja, não falecidas. Portanto não há materialidade para se constatar que um homicídio ocorreu.
Passam-se então quase dois meses até que cheguemos ao desaparecimento do menino Evandro Ramos Caetano. Nesses dois meses, na minha cabeça entendo que muitas coisas aconteceram, principalmente entre Beatriz Abagge e Osvaldo Marceneiro. Os dois com certeza se tornaram ainda mais próximos, porem Osvaldo tinha Andrea, a qual já suspeitava do affair entre os dois. Daí vem os relatos de ciúmes excessivo de Osvaldo e de possíveis agressões. Só quem trairia (ou trai), acha que está sendo traído. Pensem, o affair de Osvaldo e Beatriz jamais poderia vir à tona, por várias razões. Primeiro, Osvaldo era juntado com Andrea que veio com ele pra Guaratuba, ela talvez não tivesse pra onde ir caso os dois se separassem e por esse motivo Osvaldo talvez se sentisse responsável por ela, já que a mesma o acompanhou ate Guaratuba. Segundo, Beatriz era filha do prefeito e da poderosa Família Abagge, e não poderia ser vista com tendo um caso com um “Pai-de-Santo”. Isso iria colocar em xeque a credibilidade da família perante a política local e até mesmo estadual. Sem mencionar que na cidade o mesmo já era visto com maus olhos pelos artesãos e obviamente pelo eleitorado católico, predominante em cidades do interior brasileiro, incluindo Celina Abbage.
Porém, sabem como é não é verdade? Basta apenas que uma dádiva seja concedida para que o descrente se torne crente. Nesses dois meses Osvaldo dever ter feito alguma previsão que se tornou realidade, ou fez algum trabalho (Oferenda) para Beatriz que se provou frutífero e a mesma juntada de seus sentimentos por Osvaldo mergulhou de cabeça na idéia. Nesse interim Beatriz começou um trabalho de convencimento com seus pais com prováveis “Tá vendo, não disse que ele é serio” ou “Desde que o Osvaldo começou a fazer trabalhos nossa vida tem melhorado, estamos abrindo o Centro pra cuidar das crianças, você esta trazendo o partido pra cidade, vai Lançar a Denise como candidata e etc.” ou coisas do tipo. O que não sabíamos no começo do podcast mas ficou claro nos últimos episódios é que Celina era extremamente arrogante, ambiciosa e sedenta por poder. Logo, ao ver que as coisas estavam andando na vida da família atribuiu tudo (por influencia de Beatriz) à Osvaldo, esquecendo assim o seu catolicismo e se convertendo ao “Osvaldicismo”.
Osvaldo, sabendo que sua influência na família Abagge havia aumentado consideravelmente em poucos meses propõe à beatriz que abrissem um centro de Umbanda junto com De Paula e Davi que já estavam próximos ao “casal” nesta época. O único problema é em que cidades pequenas, notícias envolvendo a família do prefeito correm rápido. Logo ficou sabido que Beatriz estava envolvida na abertura de um centro de umbanda com Osvaldo. O que fez com que a mesma, até por pedido de seu próprio pai deixasse a idéia de lado pois não seria bom por motivos políticos. Enfim, com algumas coisas indo bem pra família Abagge atribuídas à Osvaldo faltavam as coisas principais serem “consertadas”. A serraria que não andava muito bem das pernas (e da onde provavelmente vinha o sustento de toda a família, já que pelo que dá a entender Beatriz, suas irmãs e sua mãe não tinham renda alguma ainda que estavam envolvidas em projetos aqui e acolá) e a força política que Aldo e Celina tanto queriam e que estava sendo ameaçada por Diógenes (com seus panfletos) e pelo outro candidato da oposição (o qual não me recordo o nome).
A família Abagge convencida de que Osvaldo tinha o poder de interceder por eles e ajudar a família a sair dos problemas políticos e financeiros que os afligiam pedem ajuda à Osvaldo. Agora lembrem-se de que Osvaldo não tinha nenhuma outra ocupação a não ser jogar búzios e ser “Pai-de-Santo”. Depois de meses de consultas com a população de Guaratuba e seu envolvimento com Beatriz, Osvaldo vê neste apelo a chance de fazer um pé de meia. Neste momento Osvaldo descreve à Beatriz o que deveria ser feito, quanto custaria e quem participaria. Acredito que Beatriz ao ouvir o que deveria ser feito deve ter se assustado e não deve ter concordado de primeira, porem Osvaldo lhe diz que é a única maneira de conseguir tais benefícios. Depois de conversa com sua família Beatriz e Celina decidem proceder com as orientações de Osvaldo. Começa então a segunda caçada ao próximo menino que teria de ser sacrificado. Entra aqui agora a parte da “Gourmetização” da religião. Osvaldo por conveniência ou não, não posso afirmar, envolveu o número 7 neste trabalho. Pois lembrem-se, há de fato 7 linhas de trabalho nas religiões afro-brasileiras. Coincidência ou não, neste caso acredito que não. Osvaldo, além de ter 7 letras, é um nome o qual a soma de suas letras pela numerologia também é 7. Evandro, além de ter 7 letras, também soma o número 7 quando usamos a numerologia. E o suposto ritual acontece no dia 7 de Abril 1992. Neste caso, não acredito que sejam apenas coincidências, pois são muitas. É aquele velho ditado, onde há fumaça há fogo. São muitas coincidências juntas, porém vamos chegar nessa parte quando falarmos sobre as torturas.
Após a aceitação da proposta de Osvaldo, a família Abagge, começa a premeditação do ritual. Se o que falei sobre o número 7 no parágrafo acima confere, então Evandro se torna um alvo. Pois lembrem-se, para que o menino escolhido se encaixasse nos parâmetros, eles deveriam saber o nome do garoto, não poderia ser qualquer garoto. Então assim, as Abagge começam a pensar nos meninos os quais elas sabiam o nome e que poderiam se encaixar no pedido de Osvaldo. Os pais de Evandro estavam diretamente ligados à prefeitura, sendo sua mãe Maria trabalhando na Escola onde Evandro frequentava e o seu Pai Ademir na prefeitura. Logo, a família Abagge conhecia a família Ramos Caetano muito bem, e sabia o nome de seus filhos. Por um infortúnio Evandro se encaixava perfeitamente. Agora, colocando de lado o simbolismo do número 7, Evandro só estava na hora errada no lugar errado e fui abduzido pois era um menino. Pensem, proveniente de uma família humilde, os Ramos Caetano jamais pensariam que a família Abagge, a mais poderosa de Guaratuba faria uma coisa dessas. Mas sabe aquele negócio de é tão óbvio que ninguém nunca suspeitará? Pois então, mas o que eles não esperavam é que Diógenes estaria à espreita aguardando um passo em falso para que ele atacasse.
Eis que no dia 6 de Abril de 1992 por volta de 9:30 da manhã por um acaso (ou não, pois acredito que o menino Evandro não fazia aquele trajeto todos os dias naquele mesmo horário. Naquele dia ele não havia tomado café (ou esquecido o mini-game) e foi até em casa buscar na hora do recreio) enquanto passando pelas redondezas da casa dos Ramos Caetano, as Abagge avistam o menino Evandro indo pra casa e o seduzem com balas para dentro do carro. Voltando à simbologia do numero 7, lembrem-se de que o ritual seria feito no dia 7, logo elas deveriam ter o menino um ou dois dias antes apenas, pois o mesmo deveria estar vivo no momento do sacrifício e não teriam onde deixar o menino por um longo período de tempo caso o tivessem raptado por muito tempo antes de poder fazer o ritual.
Vale voltar um pouco no tempo para mencionar o relato de Diógenes dizendo que Osvaldo havia espalhado pela cidade que uma grande tragédia iria acontecer e iria virar a cidade de pernas pro ar. Aqui é a parte onde ele mesmo começa a entregar a corda pra que fosse enforcado mais adiante. Sabendo do ritual que aconteceria, já que as Abagge haviam concordado, Osvaldo viu aí a oportunidade de se tornar “famoso” pois ele haveria previsto um acontecimento antes que o mesmo houvesse ocorrido, OU, o mesmo de fato viu nos búzios que algo viraria a cidade de pernas pro ar, mas não sabia que ele estaria envolvido. Afinal, ninguém comete um crime esperando ser pego, certo?
Depois do rapto do menino Evandro no dia 6 começam os preparativos para o ritual no dia seguinte, dia 7. Airton Bardelli, já envolvido com Osvaldo por intermédio de Beatriz recebe a ordem de que no dia seguinte todos da serraria deveriam ser dispensados mais cedo às 6 horas da tarde, para que o trabalho pudesse acontecer às 7 (?). Aqui fica a minha duvida, e eu não sei responder essa questão de como Bardelli e Cristofolini entram no ritual. Será que apenas para composição de quórum, já que Osvaldo disse que precisariam de 7 pessoas? Osvaldo pediu à Cristofollini, seu então vizinho para que apenas os ajudasse compondo o grupo, e a mesma coisa à Bardelli por parte de Beatriz já que Bardelli estaria na Serraria e seria responsável pelos funcionários não estarem lá? Isso é uma das coisas que jamais saberemos. Porém, não acredito na parte que a serraria ficou fechada uma semana para que eles pudessem limpar o local e etc., qualquer idiota colocaria um pedaço grande de lona ou plástico para forrar o chão e não ter que lavar ou limpar o sangue depois. Se eles não o fizeram assim, foram burros – fica a dica pra próxima rs.
O Ritual acontece de acordo como relatado, onde o menino Evandro é oferecido em forma de sacrifício para um Exu (Não para o Diabo, não para Satã, não para nada disso). Acreditem ou não, mas Exus em sua grande maioria não são espíritos maus, são apenas mensageiros entre o mundo dos vivos e dos mortos os quais cobram pelos seus serviços (em forma de oferendas). Contudo, há também Exus de má índole, que são espíritos não evoluídos e que agem pelo lado errado da gira. Qual o Exu ao qual o menino Evandro foi oferecido, nunca saberemos. Após o ritual ser terminado os 7 deixam a serraria e Beatriz e Celina voltam pra casa, e Celina vai à tal festa com Aldo. Osvaldo, De Paula, Davi, Bardelli e Cristofolini se dirigem às suas casas. Aqui fica aquela confusão sobre o dia 6 ou dia 7, bar da dobradinha, jantar na casa de Antonio Costa. E também onde Andrea desmente o álibi de todos, pois diz ter visto Osvaldo e De Paula saindo com roupa de trabalho e sendo buscado por Beatriz. Mais um indício de que Osvaldo e Beatriz estavam tendo um affair o qual Andrea já sabia e por vingança não encobriu o seu namorado.
Voltando ao dia 6, após o desaparecimento de Evandro, sua família obviamente estava recorrendo a qualquer tipo de ajuda. Nisso chega a notícia no terreiro da mãe Hortência por meio de Davina de que o menino havia sumido e a família estava pedindo que pessoas se dirigissem à casa da família para orações. Não obstante, Vicente de Paula vai à casa dos Ramos Caetano e recebe a entidade que se propõe a ajudar porem não quer fazer naquele momento pois o “cavalo” não está com a roupa adequada. A entidade pede que o mesmo coloque sua roupa enquanto vai na “gira” ver se consegue achar o menino e que depois voltaria. Acho que é aqui que o resto está na casa de Antonio costa jantando após a sessão no terreiro. Depois do jantar quem vai ajudar na busca é Osvaldo com Davi dos Santos (que não é o “Cheiro” rs) junto com Davina e seu marido Mario. Quando a entidade pede que seja levada a uma rua que tenha palmeiras Osvaldo sinaliza que sentiu uma presença forte no final da rua perto do mato. Aqui na minha opinião, Osvaldo entrega mais um pouquinho de corda para ser enforcado na tentativa de fazer o seu nome como Pai-de-Santo. Depois da profecia de que haveria uma tragédia na cidade ele deve ter achado por bem profetizar a presença do menino naquela região pois já havia planos de desová-lo lá após o ritual. Porém isso foi mais uma bala na arma de Diógenes.
Cinco dias depois quando o corpo é encontrado no Sábado dia 11 de Abril a 30 metros do local onde Osvaldo havia sentido uma “presença forte”, as coisas começam a ficar suspeitas. Infelizmente o corpo encontrado está além do reconhecimento e fica difícil a confirmação porem como já sabemos o corpo encontrado está sem as mãos, sem alguns dedos dos pés, sem orelhas e olhos e sem órgãos internos incluído coração. E tudo isso é explicado nas doutrinas, a falta das mãos é para fortuna, do pênis para impotência, e assim vai. Não me recordo de todos. E é aqui que as coisas começam a ficar esquisitas e se esclarecer ao mesmo tempo. Mesmo que o corpo encontrado não seja de Evandro, seja de Leandro Bossi por exemplo. Os cortes citados, as partes faltantes do corpo são por coincidência de acordo com a doutrina de sacrifícios?! Não acredito, e tem mais, aqui cai por terra também a teoria de que Diógenes teria conspirado contra as Abagge. Pelos depoimentos de Diógenes ele se mostrou TOTALMENTE ignorante às religiões aqui envolvidas. Portanto, ele não saberia o que fazer com o corpo para que parecesse que um ritual de sacrifício tivesse sido realizado no corpo em questão. E mais, se hoje nem na internet se encontra tais instruções podemos imaginar em 1992. Só quem de fato é praticante há MUITOS anos tem acesso a como praticar tais rituais. Pois não é apenas pegar um corpo X cortar e tchau, como o nome diz é um ritual, portanto existem musicas, palavras a serem faladas dentre outras coisas e só quem estuda há um bom tempo sabe o que fazer.
Portanto quando Diógenes faz a sua denuncia no dia 29 de Maio de 1992 quase DOIS meses depois do ocorrido, ele se baseia em “fofocas” porém também em outros fatos, como sobre a do “Grupo Tigre” estar próximo à família Abagge durante as investigações. Se depois de dois meses ninguém sabe absolutamente nada, é porque alguma coisa tem, concordam? Depois da sua denuncia ao ministério público, o mesmo acha por bem colocar o “Grupo Águia” da PM em uma investigação paralela à da Polícia Civil que nada fez por dois meses. Aqui na minha opinião entra a parte onde Diógenes tinha sim uma agenda contra a Família Abagge. Por N motivos ele não gostava deles em especial à Celina que causou o divórcio de seus pais. Após ficar sabendo de tudo que ficou por intermédio de conhecidos, Davina, Edézio, Jorge Banana e cia, ele foi mais do que correndo colocar a sua denuncia pois então ainda que não tivesse provas concretas pra ele tudo aquilo fez sentido e ele tinha nas mãos o que sempre quis.
Não acredito que as testemunhas tenham mentido a pedido de Diógenes. E entendo o fato delas não terem se pronunciado no dia, ou dias depois. Morando numa cidade pequena onde todos se conhecem, a família mais poderosa e talvez mais rica da cidade se envolve num crime hediondo desses, você se pronunciaria? Eu não me pronunciaria, e é a verdade. No caso de Edézio, ele ficou sem saída porque seu amigo Hamilton ao qual ele havia confidenciado ter visto as Abagge raptando o menino Evandro contou ao Diógenes que por sua vez deve ter obrigado ele a prestar depoimento do que havia visto. Não há nada de estranho nisso. A mesma coisa com o Jorge Banana, se eu estou pescando e vejo um saco cheio de restos mortais do que poderia ser um feto, meu barco viraria uma lancha de tão rápido que eu sairia de lá. E com peixe ou sem peixe no meu barco eu JAMAIS puxaria o saco pra dentro do barco. E é isso que talvez destrua a credibilidade das testemunhas, o MEDO. Ninguém quer admitir que tem medo, mas a grande maioria das pessoas tem, e por não querer admitir isso em juízo ou em depoimento acaba passando por mentiroso. Pois é muito fácil falar, “Ah, mas você viu que tinha mãos dentro do saco, cabelo e não pegou o saco?!”. Não, eu também não pegaria. Agora, se eu soubesse do que tinha acontecido (Coisa que Jorge Banana não sabia à época do ocorrido), e visto um saco com as coisas eu chamaria a policia sem dúvida alguma, porém se não soubesse, aquele saco de cal iria ficar lá pra sempre.
Finalmente chegamos às prisões dos dias 1,2 e 3 de Julho de 1992, onde os 7 acusados são presos. Aqui eu vou ser bem sucinto e explicito nas minhas opiniões. Eu acredito que todos tenham sofrido tortura sim, sem sombra de dúvidas. Porém pra confessar aquilo que de fato haviam cometido porque jamais confessariam de uma outra forma. Não defendo tortura e não acho que esse deveria ter sido o caminho a ser seguido. E acho que a maneira com a qual a PM conduziu as prisões e os interrogatórios foi o que estragou o caso. Se eles não tivessem torturado os réus a argumentação da promotoria teria sido muito mais forte e o único argumento da defesa seria o de que o corpo encontrado não era o de Evandro.
Agora as perguntas que ficam e talvez a chave de todo esse mistério é, se o corpo encontrado não é o de Evandro como afirma piamente até hoje o Delegado Luis Carlos de Oliveira, porque os acusados colocaram as roupas de Evandro no cadáver? O que eles tentaram fazer aqui? Encobrir uma morte com outra? Desovar o cadáver de Leandro Bossi que estava na geladeira que a Celina tirou da serraria como relatou Teresinha e por isso tinha marcas roxas e já estava em estado de putrefação como se fosse Evandro? O que vocês acham? Isso vai ficar no imaginário de cada um, pois nunca saberemos.
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Cidade planejada pra quem?

Bom dia putada do caralho, esse post é só um desabafo que está na minha garganta há anos e tem se intensificado mais ainda nos últimos 3 anos, não tenho intenções de hit e provavelmente farei um textão então se quiser ler meu hate à capital da Pátria Amada, aperte os cintos.
Moro em Brasília, não exatamente no centro de BSB, mas sim em uma cidade ao lado. Daqui pro centro(Plano piloto) é 1 hora de ônibus, uns 50km. Pois bem, já to cansado com o descaso que é o Distrito Federal, tudo que tem de bom vai tá no centro e chegar lá é muito cansativo e caro. Dizem que Brasilia foi planejada, sim foi, mas para os ricos que moram no centro pq quem mora nas cidades satélites se fode em tudo a Cultura é escassa festas, exposições de arte, shows... tudo acontece de noite e longe e normalmente não é na Asa Sul e Norte (lugares para onde tem mais ônibus e até meia noite) pq é uma área com muitas residências e aqui existe a lei do silêncio extremamente forte e qualquer barulho já dá policia. E depender de ônibus pra chegar nos locais que ocorrem tudo isso quase sempre é roubada, se existir transporte direto para o local é sorte. Normalmente vai ter que ir pra rodoviária do Plano(centro) e dps pegar circular pra tal local e ai que tá, os circulares param de funcionar antes de noite. A real é que Brasilia foi feita somente pra quem pode (ricos com carro) se divertir no centro ao fins de semana pq a galera das cidades ao lado só conseguem ter acesso fácil no meio de semana e somente pra ir trabalhar e depois voltar pra casa. Nos fins de semana a frota de ônibus e reduzida na metade passando só de 1 em 1 hora e muitas vezes a linha que tem no meio de semana nem passa no fim de semana exatamente já pra evitar que a massa tenha acesso aos lugares que a elite vai aos FDS pra se divertir. É nítido que aqui quando a massa consegue ter acesso a algo fácil a elite se incomoda e logo toma providências pra banir isso, por exemplo pra ir para o único centro de exposições que oferece trabalhos do mundo todo(e que já fica no meio do cerrado, longe pra carai pra qualquer um sem carro), tinha ônibus grátis pra lá e antes desse ônibus lá era bem Elite BSB Starter Pack: Pai, mãe e filhos brancos curtindo um dia de sol na grama maravilhosa que tem lá de frente pra ponte JK logo após ver alguma obra de um artista italiano. Posso dizer com todas as palavras, o lugar é ótimo porém essa tipo de pessoa sempre olhava torto pra galera da periferia o que acabava deixando a experiência com o ambiente num geral, PÉSSIMA! Com o ônibus isso mudou muito, eu frequento o local há anos e foi clara a mudança, o que antes era só família branca com filhos pequenos se tornou um espaço diverso onde tem todo tipo de pessoa, da galera periférica ao índio, do Latino que mora na UnB até o Nigeriano que vende a arte dele na rodoviária. Foram anos lindos, eu realmente comecei a me sentir em casa e ia ver exposições praticamente todo mês porém isso passou a incomodar (não sei se aos responsáveis pelo espaço ou os frequentadores ricos ou os dois) acabou que o ônibus foi retirado alegando corte de gastos (uhun, sei...) e pra ir para lá agora tem que pagar um que não passa na mesma frequência que o grátis e não faz o mesmo trajeto(que passava dentro da UnB) o que complica todo rolê se quiser ir tem que ser no meio de semana pq no fim de semana demora muito mais pra sair ônibus pra lá e pra voltar pra rodoviária tem que ter se socar em ônibus que vem de outra cidade e passa por ali, não existe ônibus pra voltar igual existe o pra ir nos meios de semana. Eu claro parei de ir lá sempre e quando fui no ano passado voltei a ver o mesmo ambiente que era antes do ônibus, um lugar quase vazio, quem tava lá era família branca rica com carro, raros jovens, todos adultos com olhar superior para quem eles julgam inferior. Isso é só um exemplo. quem mora nas satélites (principalmente a que eu moro que não tem shopping nem nada. Lazer zero) só vai pra esses locais ricos pra trabalhar, pra se divertir é impossível. eu sempre quis ir num shopping que se auto intitula o shopping da elite de Brasilia só pra ver como é e também pq já sofri racismo em 2 dos shoppings mais povão desse buraco chamado Brasilia, porém onde eu moro não existe ônibus direto para lá, fui descobrir no inicio do ano que tem um que passa aqui perto de casa mas às 6 da manha e só ele. Então se eu quiser ir nesse shopping terei que ir de manha e ficar até ás 13h se quiser ver um filme no cinema por exemplo.
Eu fiz esse textão todo pq o ápice aconteceu umas horas atrás, quando vi que vai ter uma palestra da Google aqui sobre a área que eu estudo (Desenvolvimento de Sistemas) e geral da minha sala vai pq moram ou no centro ou nas cidades ao lado (que todas tem metrô) e eu não poderei ir pq não tem transporte pra eu voltar pra casa (tem o ônibus corujão, mas para na rodoviária da minha cidade e eu moro há 3km da rodoviária e o último circular sai ás 23:40, voltar de pé nesse horário está fora de questão. Eu poderia muita bem ter feito só esse último paragrafo como desabafo mas ficaria muito vago, precisei dar um contexto e já foi um momento oportuno pra eu soltar o hate kkkkkkkk
PS: a palestra começa ás 18h e termina ás 22h. eu saio do curso ás 17h. A faculdade é super perto do local do evento mas se quando eu saio às 17h chego em casa 19:30(30 minutos de transito pq normalmente é 19h) sempre imagina se eu for pra palestra e na volta ter que esperar um ônibus do local do evento pra rodoviária do centro (o que nem sei se tem) e dps um pra minha cidade (+2 horas viagem) e dps já na minha cidade ir de pé mais de meia noite na rua. Infelizmente não dá.
PS 1: Não penso em tirar carteira de motorista nunca pq tenho ansiedade e transito me deixa propenso a ter crises e tbm acho carro uma perda de dinheiro.
PS 2: dormir na casa de alguém da sala está fora de cogitação já que nem conheço eles direito, uns já são pais e o outros dormem com namorada (não quero empatar foda de ninguém)
PS 3: O prédio do evento é exatamente atrás do centro de exposições que eu disse, então ir dele pra rodoviária é a mesma coisa que do centro de exposições.
PS 4: Se eu me perdi no assunto alguma vez, releve, deu pra entender o recado: BRASILIA NÃO É UM LUGAR LEGAL. PENSE MILHARES DE VEZES ANTES DE PISAR AQUI.
Eu to bem triste sim, porém isso é mais uma coisa que eu não posso fazer pq moro longe, cresci assim e já to acostumado. Já pensei em entrar pra política e tentar mudar isso, dar possibilidade pra galera de onde eu moro experimentar o que eu experimentei pq tive a coragem de fazer viagens de 3 horas num ônibus(tudo pago com passe livre estudantil, claro, que é outra coisa que querem tirar de nós) pra ver alguma exposição de arte interativa, mas desisti total, não vão deixar isso acontecer, a coisa é mais la embaixo. o que me resta é terminar meu curso trabalhar e ter dinheiro pra me mudar do DF e ir pra alguma capital do Nordeste (cultura e povo que eu amo) pq Brasilia não oferece nada de bom nem vai oferecer tão cedo.
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Para vc que amei

(Escrevi essa carta pensando em não mostrar para ninguém. Mas não teve o efeito que eu esperava. Quem sabe se outras pessoas lessem)
Oi, tudo bem?
Menos de uma semana atrás eu te mandei uma mensagem sobre um filme que assisti. Dessa vez vc respondeu. Foi educada, mas não continuou a conversa. Para mim foi o suficiente para achar que desta vez a msg tinha alguma chance de virar uma conversa, então fiquei tentando pensar em como puxar assunto. Não quis usar perguntas pq não queria fazer vc se sentir obrigada a responder. Pensei em te contar sobre a minha vida, que mudou bastante nos últimos 2 anos.
Mas achei que esse seria um bom assunto para quando finalmente conversarmos em pessoa. Acabei escolhendo um elogio, a maravilhosa habilidade que vc tem e sempre me deixou com inveja foi a capacidade de ter assuntos e manter uma conversa saudável. Mandei essa mensagem,
Agora acho que vc pode estar interpretando como se eu estivesse sendo "passive-aggressive", como que reclamando de vc ter sido "apenas" educada e não continuada a trocar msgs.
Eu odeio que a parte de mim que tenho te mostrado nos últimos 10 anos foram de msgs nos momentos que estive mais triste, solitário ou fragilizado de alguma maneira. Toda vez que paro para pensar, sei que estas msgs só servem para te afastar ainda mais de mim. Mas, acho que saber que vc está do outro lado, ainda que não me ouvindo, tem me feito bem.
Anteontem te mandei outra mensagem. Desta vez mais parecida com uma conversa saudável. Contei que mudei de emprego, de cidade, perguntei como vc está. Dessa vez o resultado foi muito diferente. Não quanto a sua resposta, mas que poucas horas depois de enviar a msg a minha "crise" atual melhorou bastante. Ao ponto de achar que eu estava bem, pelo menos até a próx crise daqui 2 ou 4 anos.
Foi pensando nesse bem estar que resolvi escrever esses sentimentos. "Talvez seja o processo de transformar seus sentimentos em palavras que tenha tido o efeito benéfico." Decidi que, da próx vez que eu realmente precisasse dizer alguma coisa, escreveria neste papel. Não demorou para meus pensamentos estarem cheios de novo.
Assisti um vídeo sobre relações abusivas, e me corta o coração identificar atitudes minhas como as de um namorado abusivo. Eu me odeio por todo mal que já te fiz e nem pedi desculpas. (...) Agora me lembro que eu cheguei a me desculpar por ter te ignorado naquele churrasco, mas o verdadeiro peso daquelas ações só entendi agora, que o vídeo citou explicitamente que ignorar seu parceiro em um ambiente público é uma atitude abusiva e altamente prejudicial.
Hoje eu entendo que usava o silêncio como uma arma contra você. E só posso imaginar o quanto isso te machucou.
(...)
Passei alguns minutos discutindo comigo mesmo se deveria escrever pensamentos que provavelmente irão te afastar ainda mais de mim. Escrevo com o sentimento de te mostrar, mas sem intenção real de te enviar ou mostrar esse caderninho. Por isso mesmo não faz sentido não ser honesto com o papel. Oras, ser menos honesto e escolher quais pensamentos escrever são resquícios do comportamento manipulativo meu. Como se mesmo uma carta de desabafo, que nunca será mostrada devesse ser escrita com a intenção de te convencer a conviver de novo comigo.
Até pq se eu não consigo expressar meus sentimentos para um pedaço de papel, como poderia expressá-los para você?
Os pensamentos, que meu lado medroso queria deixar de fora desta carta, era que se eu consigo hoje identificar atitudes tão tóxicas em como eu era quando estávamos juntos, provavelmente existiam outros que eu nem entendo como problemáticos. Pensei também que, quando vc me ignora nas estúpidas msgs que envio, está apenas se protegendo de uma pessoa... tóxica? abusiva?
Eu já não sei o quanto estou sendo realista ou apenas sendo auto depreciativo. Esse comportamento provavelmente é outra característica abusiva minha.
Não sei se chegou a ver o filme "before the sunset", imagino que ainda não. Passou menos de 1 semana desde que te disse para ver.
Eu gostaria muito de te dizer que quis te recomendar o filme principalmente por 2 motivos:
O tom da conversa que os personagens tem. Como se o tempo que passou não fizesse diferença nenhuma e eles fossem bons amigos durante todos estes anos. Queria que vc lêsse as minhas msgs para vc com esse tom, de maneira meio leve, meio pesada, mas principalmente honesta.
Eu sei que, em termos de voltarmos a ficar juntos, não entrar em contato e deixar o acaso nos juntar seria mais efetivo. Mesmo que demorasse muitos anos. Mas só de pensar em isso não acontecer eu sou tomado por uma tristeza, um sentimento de vazio.
O segundo ponto do filme que queria muito conversar com vc, é quando a mulher diz: "I was fine until i read your book"
Com ctz vc já percebeu que isso acontece bastante comigo. A maior parte das vezes eu me lembro de vc com saudades e carinho, e um gosto bitter sweet que fica na boca. As vezes, como essa de agora, a saudade fica demais. Eu não me controlo e acabo mandando alguma msg torcendo que encontre vc em um momento parecido, e consiga transformar a distância entre nós em uma conversa como a do filme.
MAS, eu nem sei se vc tem a mesma saudade que eu sinto por vc. Quando penso em como fui com vc, imagino que fui apenas uma fase ruim, que vc seria mais feliz se não tivesse me conhecido. Ao mesmo tempo, eu me recuso a acreditar que seja possível sentir tanta saudade de alguém que não sente a sua falta.
Acabo me convencendo que a única diferença é que vc tem um auto-controle melhor que o meu. Que as suas crises de saudades acontecem, quando alguma música ou filme te lembram de mim, mas que vc não me procura de maneiras bobas como eu faço com vc.
Me lembro de uma vez que vc me pediu uma receita, que fazia quase 9 anos que não comia aquilo. Eu devo ter te respondido de algum jeito ruim, pq quando te perguntei dos cookies que vc fez para mim um dia, não me respondeu mais. Essa vez eu fiquei muito confuso. Inicialmente achei que vc queria conversar como amigos apenas, mas quando não me respondeu pensei que vc continuava com aquela filosofia boba de "ex bom é ex morto". Fiquei com raiva. Vc me ignorava quando eu tentava algum contato, mas me pedia coisas qdo tinha algo a ganhar.
Quando a raiva passou, pensei que poderia ser saudade que te fez mandar as msgs, e não sabia o que fazer com essa possibilidade. Eu queria que fosse verdade, como se uma confirmação que eu fui importante para vc como vc foi para mim.
(...)
Agora, escrevendo, me lembro de vc comentando que eu pedi um tempo no namoro "do nada" ou algo do tipo. Metade dos motivos eu tenho ctz que já tinha reclamado para vc antes, e vc não fez esforços para melhorar. Era o jeito como vc tratava seus amigos homens, dando muita liberdade, inclusive quanto a contato corporal, de abraços por trás e cócegas. Essas atitudes me machucavem tanto nos meus ciúmes quanto nas minhas inseguranças. Aquele dia que eu tentei fazer cócegas em você e não consegui me incomoda até hoje. Ver um amigo seu te fazer cócegas, o jeito que vc ria, acabou comigo naquele momento.
A segunda metade de pq eu quis das um tempo, essa é a parte mais difícil de confessar. Gostaria de te dizer em pessoa, mas muito provavelmente eu nunca vou ter a oportunidade.
Quando a gente já não estava tão bem juntos, apereceu alguém.
Era uma mulher muito bonita e simpática. Acho que tanto eu como ela sentimos uma conexão, daquelas que vc sabe que a outra pessoa tb tem?! Bom, começamos a conversar mais. Me sentir próximo de alguém no mesmo momento que me sentia distante de vc me confundiu bastante. Hoje eu entendo que foi apenas um "crush" e que a gente não controla com quem vai se sentir atraído. Mas na minha cabeça isso era inaceitável. Sentir-se atraído por outra mulher era incompatível com a minha definição de amor.
Se eu tivesse na época o pouco de maturidade que tenho hoje, eu saberia que esse sentimento não significava nada. Que não havia necessidade de passar nenum dia longe de vc.
Lambrar dos meses seguintes, quando tínhamos separado mas não de verdade, Vc quis voltar a ficar juntos, eu não quis. Depois eu quis, vc não. Aí inverte mais uma vez, e depois outra. Como se fosse um problema de desencontros ou timing.
Mesmo quando estávamos namorando, toda vez que acontecia a menor das brigas eu demorava para processar meus sentimentos. Até lá vc já tinha se cansado de tentar me animar, tentar me ajudar a me abrir mais. Então, quando eu finalmente superava o motivo inicial da briga, vc estava agora chateada comigo por ter sido tão frio e distante durante a briga.
Talvez se vc tivesse mais paciência com a minha demora em digerir emoções. Talvez se eu fosse mais maduro emocionamente. Eu já não sei mais.
Só sei que é tarde demais para pedir desculpas. Eu imagino que vc me veja como o ex abusivo, que ainda tenta entrar em contato apenas para ser manipulativo. Mas eu só quero que vc saiba que eu estou pensando em vc. Que eu te vejo como a pessoa mais importante a passar na minha vida até hoje.
Eu só quero que vc saiba que eu te vejo como no filme, que um dia vamos nos encontrar, sem horários, sem relacionamentos, e que nesse dia nós vamos conversar natural e honestamente, e se não for para ficarmos juntos, que pelo menos eu consiga te pedir desculpas.
Desculpas por todas as lágrimas que eu te fiz derramar.
Desculpas por todas as brigas que não deveriam ter existido.
submitted by EuSoQueroQue to desabafos [link] [comments]

Reddit Global Meetup Day, 9 de Junho, Sábado!

Reddit Global Meetup Day!
Pessoal, dando continuidade no post de ontem, já conseguimos organizar o básico para algumas cidades aqui no Brasil. Alguns detalhes ainda precisam ser trabalhados, então esse post terá algumas edições conforme os grupos decidem coisas como local ou horário.
O Reddit Global Meetup Day é um evento anual de encontro de redditors ao redor do mundo. No subreddit /GrMD você pode encontrar mais detalhes sobre encontros em outras cidades, além de fotos de eventos anteriores!
O aplicativo Telegram será usado para comunicação para facilitar os encontros no dia, mas é opcional. Estamos usando o Telegram para facilitar a organização, com sugestões de locais, horários, etc.
Caso nunca tenha usado, o Telegram é um app leve para iOS/Android, além de cliente para Desktop. Diferente do WhatsApp, você não compartilha seu número com as outras pessoas do grupo, apenas criar um username (que pode ser o mesmo do Reddit). O seu número é utilizado apenas para sincronizar contatos e para identificar sua conta com os servidores do Telegram.

São Paulo

Local: Calçadão Urbanoide.
Horário: oficialmente, a partir das 14:00.
Como chegar: Mapa no Google Maps - Descendo na Estação Consolação ou Paulista do metrô, suba a Rua Augusta até o local.
Grupo no Telegram: https://t.me/joinchat/CQt84xGR_3iq6M11VUNfpw

Natal

Local: Parque das Dunas
Horário: oficialmente às 14:00
Grupo no Telegram: https://t.me/joinchat/CPenfxLE5D6NBWiL7WD71w
Entrem no grupo para sugerir locais e horários que sejam acessíveis!

Rio de Janeiro

Local: Shopping Nova América
Horário: 14:00
Grupo no Telegram: https://t.me/joinchat/JKQiXQu62j5TzhHSxttWnQ
Entre no grupo e já se junte com o pessoal!

Santa Catarina - Balneário Camboriú

Local: Balneário Camboriú, Sushi Central
Como chegar: Mapa do Google Maps
Horário: 13:00
Grupo no Telegram: https://t.me/joinchat/Fxc0dQ-UTm-k4sGYtsJBdw
Sugiro entrarem no grupo caso tenham interesse. Isso vai ajudar muito para a decisão do local e do horário!

Minas Gerais - Belo Horizonte:

Local: praça abc ( Getúlio com Afonso pena do lado do subway)
Horário: 13:00 ~ 14:00
Grupo no Telegram: https://t.me/joinchat/H2fo8xGVT_iu3pYPmAZf3Q
Entrem no grupo para sugerir locais e horários que sejam acessíveis!
Caso tenha interesse em organizar um evento em alguma cidade do Brasil, basta comentar a cidade e um link para um grupo do Telegram. Seu post será removido pelo AutoModerator, mas eu posso aprovar novamente depois.

Brasília

Local: a combinar
Horário: noite, provavelmente
Grupo do Telegram: https://t.me/joinchat/AehBIQ-90jd3BIgZJzizeg
Entrem no grupo para sugerir locais!

Fortaleza

Local: a combinar
Horário: a combinar
Grupo no Telegram: https://t.me/joinchat/EFwiLBGmCMbZaW-WVFHujw
Entre no grupo e já se junte com o pessoal!
Caso vá participar, também não há problemas em convidar conhecidos!
submitted by Tetizeraz to brasil [link] [comments]

Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois

A quem possa interessar, agora tem uma parte 2: https://www.reddit.com/brasil/comments/7cq1rk/today_i_fucked_up_a_estranha_sensa%C3%A7%C3%A3o_de/
Reencontrei uma pessoa muito querida para mim ontem de maneira completamente randômica. É um caso tão bizarro que não sei para quem desabafar, já que esse "relacionamento" que eu mantive há 12 anos não chegou a ser sequer um relacionamento e nunca contei dele para ninguém. Esperei a esposa dormir, sentei e escrevi um conto. Fiz uma trash account para jogar isso aqui.
Desculpem o desabafo longo, mas foi o lugar que encontrei para soltar isso.
xxxx
Aconteceu no fim de tarde de uma sexta-feira quente. A cidade impaciente se esvaía para casa nos ônibus e metrôs lotados, a onda de calor de novembro apertando o passo de quem só queria o refúgio caseiro. Saí do metrô da esperando encontrar uma noite fresca, mas fui pego no pôr-do-sol atrasado do horário de verão. Passara o dia fora do escritório em um evento extremamente técnico e só queria desligar a cabeça. Estava bem vestido, mais do que o de costume. As calças jeans escuras relativamente novas, a blusa social quadriculada que usava quando queria se arrumar – mas nem tanto – e a bolsa de couro recém-comprada para ter um ar mais profissional nesses eventos externos.
Me sentia bonito, sentia até que minha barba reluzia ao pôr-do-sol. Ridículo, né? Um pouco de contexto: sempre fui uma pessoa acima do peso e havia acabado de registrar a perda de 32 quilos e indo à academia diariamente. Como qualquer um que foi gordinha a maior parte da vida, eu estava me sentindo muito bem. Por isso, peço que sejam indulgentes comigo. Até porque esse fato é relevante para a história.
Caminhando pela praça em direção ao ponto do ônibus que me levaria para casa, me desvencilhava dos ambulantes peruanos e suas bolsas falsificadas, dos entregadores de folhetos do sex shop de uma galeria ali perto – frequentadores fiéis da praça desde que eu me entendo por gente e provavelmente responsáveis por um número considerável de árvores derrubadas para fazer seus folhetos nessas décadas – e dos estudantes, que tanto pareciam carecer de pressa. Naquela multidão de gente, me surpreendi por notar alguém que me mirava de cima a baixo logo à minha esquerda.
No começo, não me virei. Julguei ser uma daquelas ilusões que a gente tem no canto do olhar. Três, quatro, dez passos. A pessoa continuava ao meu lado e me olhando atentamente, não sobravam dúvidas. Virei o rosto e dei de cara com ela.
Eu gosto muito de ler, mas não sei se já achei na literatura algum trecho que mostre o quão chocante é reencontrar um amor perdido depois de tantos anos. Ela entrou pelos meus olhos e me atravessou por inteiro, trouxe de volta as memórias que já julgava mortas e enterradas havia muitos anos. Por dentro, eu me senti despedaçado, como se tivesse estourado um balão há muito tempo comprimido no canto do subconsciente. Eu lembrei das manhãs que passava com ela, do dia em que ela me deu um CD do Linkin Park, de quando fui embora sem me despedir e não cortei o relacionamento – tosco, incompleto e desajeitado – que nós mantínhamos.
O choque seria menor, certamente, se não houvesse uma tristeza tão cristalina em seus olhos. Ela rapidamente virou o rosto e apertou o passo, mas eu fiquei ali atrás com aquela imagem fixa na memória. Me permiti olhá-la por inteiro enquanto avançava à minha frente. Não por desejo, mas por saudade. Saudade da pele morena, do cabelo ondulado que lhe descia pelas costas da mesma forma que fazia há mais de uma década. E saudade dos olhos de arteira que ela tinha, dos quais eu só lembrei depois de vê-los tão melancólicos. Nos conhecemos no fim do segundo grau e começo da faculdade, não éramos mais crianças. Mas os olhos dela sempre me encantavam: pareciam os olhos de alguém que está ansioso e animado ao mesmo tempo, o olhar de criança que está prestes a fazer merda e sabe disso.
Por sorte, ela seguia na mesma direção do ponto de ônibus e eu a seguia com meus olhos. Não tive forças para cumprimentá-la, a vergonha falou mais alto. Ela também não quis fazê-lo e foi fácil entender porque. Ela envelhecera bem mais do que eu esperava. Tínhamos a mesma idade, eu e ela, mas lhe daria uns dez anos a mais do que eu sem pensar duas vezes. Ganhara peso, o rosto e o cabelo pareciam maltratados, a roupa era desleixada. Nenhum julgamento aqui, quem não teve seu dia de ‘foda-se o mundo’ que atire a primeira pedra. E mesmo assim fez o meu coração parar. E mesmo assim eu só queria correr para perto dela e dizer oi.
Eu e ela éramos criaturas estranhas. Nós dois vínhamos de famílias de classe baixa, nós dois estávamos em um curso de inglês pago por algum parente mais rico, nós dois começamos a trabalhar cedo, nós dois éramos excelentes alunos, nós dois fazíamos parte daquela onda de rock do começo dos anos 2000 que incluía Linkin Park, Evanescence, System of a Down e algumas outras bandas que estavam na moda na época.
Começamos a nos aproximar quando contei para ela que queria fazer XXXXX (carreira omitida). Ela também queria, por isso passamos o ano anterior ao vestibular trocando dicas, comentando provas e trocando confidências no fim da aula de inglês. Eu fazia questão de levá-la para casa todos os dias após o fim da aula de inglês e nós acabamos ficando muito próximos. Só tinha um detalhe: eu e ela éramos comprometidos. Eu namorava uma colega de escola há pouco menos de um ano e era perdidamente apaixonado por ela, apesar dela ter se tornado uma companheira extremamente abusiva ao longo do relacionamento e termos nos separado. Ela namorava um amigo de infância, tinha tudo para crer que ela também era apaixonada por ele e estava prestes a se casar dali a um ano e meio. Sim, ela casou-se ridiculamente cedo, com apenas 20 anos e teve dois filhos logo depois, pelo que eu ficaria sabendo mais tarde por acidente. Nesse período de cerca de dois anos, mantivemos esse relacionamento estranho que eu sequer sei como classificar. Recém-chegados no curso achavam que éramos namorados, apesar de nós nunca nos abraçarmos, andar de mãos dadas ou coisas do gênero. Os alunos que estudavam conosco há mais tempo e já tinham visto nossos verdadeiros namorados achavam apenas que colocávamos chifres neles. Nós nunca fizemos absolutamente nada. Não houve beijo, não houve cabeça no ombro, não houve mãos dadas. Fisicamente, nunca houve nada. Mas havia ali uma cumplicidade quase criminosa, olhares mais longos do que o necessário, um quase que jamais se tornava realidade. Talvez esse carinho fosse fruto de sermos tão parecidos e termos origens tão similares.
Mas tudo acabou sem aviso. Em um intervalo de meses, sofri um duplo revés. O parente que pagava o meu curso descobriu que estava com câncer e seus custos com saúde aumentaram drasticamente. Eu já estava trabalhando e podia pagar, mas perdi o emprego no mesmo semestre. Tudo aconteceu em um intervalo de um mês, em janeiro, e eu não pude voltar ao curso para o semestre seguinte. Era uma época diferente. As redes sociais não eram tão onipresentes (eu tinha meu bom e velho Orkut, ela achava rede social bobeira) e não havia Whatsapp. E algo em mim insistia em dizer que era errado ligar para ela, que era ir longe demais. Então eu sumi da vida dela sem aviso, sem dar satisfação. Simplesmente não me matriculei no curso e jamais toquei no assunto com ninguém, nem com meus amigos mais próximos. Doeu – e doeu muito – mas eu deixei a vida sedimentar tudo aquilo. Eu ganhei peso, meu relacionamento com aquela namorada não andava bem. Naquele momento, eu só queria sumir e não ver mais ninguém. E aquela saída brusca acabou me ajudando nesse sentido. Some aí a baixa auto-estima. Eu nunca achava que uma mulher estava dando bola para mim até elas praticamente se jogarem no meu colo. Quase todas as mulheres com quem saí tiveram a iniciativa ou deixaram bem claro que queriam alguma coisa, sempre fui lerdo ao extremo para flerte. E perdi grandes oportunidades por conta disso, mas isso é passado e não me causa dor, só uma risadas. Exceto nesse caso.
De lá para cá, soube pouco dela. Descobri por um grande acaso que ela teve dois filhos logo após o casamento (Orkut de amigo de um amigo de um amigo que estava no chá de bebê do segundo filho dela, rs). Também vi que ela não passou no vestibular para a carreira que escolhemos, senão seria mais fácil encontrá-la. O curso era bem concorrido e ela não passou duas vezes. Na terceira, já estava com filho e casada, então não avançou. Esbarrei com ela enquanto estava grávida do primeiro fazendo compras no mercado com o marido. Nesse dia, eu estava acompanhado de vários amigos, completamente bêbado e indo para uma festa na região boêmia da cidade. Trocamos um olhar meio constrangido nesse dia, nada mais. Tinha uma mágoa bem nítida nos olhos dela, mas eu ainda relutava em acreditar que eu significava muita coisa para aquela menina. Eu só iria me tocar anos mais tarde que eu, apesar de estar fora dos padrões de beleza, recebia sim atenção do sexo oposto.
Agora avançamos 12 anos no futuro. Cá estou eu, perdido, olhando para uma mulher que teve um relacionamento tão tênue e tão profundo comigo ao mesmo tempo. Ela parou e entrou em uma loja de sapatos em frente ao ponto de ônibus para o qual eu estava indo e, mesmo pela vitrine, trocamos alguns olhares demorados. Eu queria chegar perto, eu queria dizer oi, eu queria chamá-la para jantar. Mas, no auge dos meus 30 e poucos anos, eu me senti um adolescente envergonhado de 17. E uma voz bem clara ecoava na minha cabeça: “você é casado, você tem um casamento muito feliz e você nunca traiu sua esposa e nenhuma das suas outras ex-namoradas. Você não vai começar a fazer merda agora”.
E se eu fosse dar um oi, serviria de quê? Requentaria um amor adolescente que provavelmente só faria mal a nós dois? Reviveria a mágoa daquele adeus decepado, sem dar a menor satisfação? Tudo isso só transformava minhas pernas em âncoras que meus olhos teimavam em ignorar. Ela saiu da loja e, pela primeira vez naquele fim de tarde, me olhou de forma direta. Sem aquela desviada de olhar que vem um par de segundos depois, sem aquela sensação de acidente ou constrangimento. Nos encaramos por um período que, me perdoem o clichê, parecia uma eternidade. Eu sabia que aquela era a minha deixa para chegar mais perto, mas eu não fui. Ela me deu as costas e sumiu na multidão, provavelmente para sempre. Meu coração ficou ali perdido, sem saber como era possível lembrar-se de tanta coisa em tão pouco tempo.
Sentado no ônibus de volta para a casa, as memórias vinham em atacado. O dia em que ela fez uma cópia do Hybrid Theory e me deu de presente de aniversário. A vez em que eu ganhei de um amigo meu um chaveiro do Nirvana e, quando ela foi pegar para ver, sem querer seguramos as mãos por uns segundos que pareciam compreender toda a história da humanidade. Quando levei meu discman para o curso e a gente escutou junto um álbum do System of a Down no ano em que lançaram Hypnotize e Mezmerize.
É triste a vida ser tão curta, eu concluí. Tem tanto amor para se viver, tanta história que poderia se escrita a dois que nós nunca vamos conhecer. Tanta coisa inesperada que acontece num fim de tarde sem propósito, tanta coisa que a gente deixa de perceber e que acontece porque você notou alguém no canto do seu olho. E eu, muito provavelmente, nunca mais vou vê-la. Se eu tivesse a oportunidade de reviver esse momento, eu não sei o que eu faria. Chamava para tomar um café e pedia desculpa por nunca ter falado que eu era perdidamente apaixonado por ela e que vivia um relacionamento conturbado com uma companheira abusiva, mas que a baixa auto-estima me impedia de agir? Diria que havia praticamente esquecido que ela existia nos últimos 10 anos, mas que bateu um misto de culpa e carinho enormes tanto tempo depois? Não acho que nada disso valeria a pena.
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Today I fucked up: a estranha sensação de reencontrar um amor do passado 12 anos depois / Parte 3

Galera, finalmente postando a última parte da saga. Depois de pensar para caralho, resolvi falar com ela pelo Facebook e marcamos de nos encontrar num café pertinho da praça onde nos esbarramos. Para quem não conhece a história desde o começo:
Parte 1 - TL/DR: sou casado, reencontrei uma garota por quem eu era apaixonado há 12 anos e só nesse reencontro eu percebi como eu fui um imbecil com ela. Em resumo, nós éramos grandes amigos, eu fiquei com medo de me declarar, meti o pé do curso de inglês que fazíamos sem dar nenhuma explicação e desapareci completamente da vida dela.
Parte 2 - TL/DR: comecei a me perguntar se aquela garota que eu reencontrei realmente era ela, já que ela parecia tão mais velha. Depois de dezenas de tentativas, achei ela no Facebook e sim, realmente era ela. Descobri que um amigo meu já tinha saído com uma prima dela há muito tempo e soube que ela teve uma vida bem escrota, foi abandonada por um marido meio babaca e agora basicamente vivia só pelo filho na casa dos pais.
Parte 3 - Taí. Nos reencontramos. Foi uma experiência que eu não sei classificar. Foi feliz, foi triste. Foi amargo, foi doce. Foi impressionante. A gente chorou um pouco junto. Escrevi um pouco ontem à noite e terminei hoje de manhã.
Só queria agradecer a todos os conselhos e dicas que recebi aqui. Reencontrar alguém do passado é uma coisa que mexe muito com a gente, faz com que nosso coração se sinta naquela época novamente. Essas quase três semanas foram muito estranhas. Foi quase uma viagem no tempo por coisas que eu achava já ter esquecido completamente. Infelizmente não posso dividir muito disso com amigos próximos, então fica aqui o desabafo.
Esse último ficou mais longo do que eu esperava. Honestamente, a gente conversou tanto que acho que resumi até demais. Como da primeira vez, fiz em formato de conto. Novamente, obrigado a todo mundo que deu um help nessa história, que finalmente se fechou.
Era um café bonito. Novo da região, era um daqueles negócios em que você vê o coração de um sonho do dono. As mesas rústicas de madeira, as lâmpadas suspensas que desciam do teto em fios de prata, como teias de aranha tecidas por vagalumes. O quadro negro cuidadosamente preenchido com os preços e até desenhos estilizados de alguns pratos. No fundo, um jazz instrumental marcava presença de forma tênue. Também era um daqueles negócios que você sabe que não vai durar muito. Que você bate o olho e pensa: “com essa crise, é melhor eu dar um pulo lá antes que feche”.
Eu presto atenção a cada detalhe ao meu redor. À roupa preta das atendentes, ao supermercado do outro lado da rua que vejo pela vitrine. Aos clientes que entram e saem de uma loja das Casas Pedro. Eu não quero esquecer de absolutamente nada. Era um ritual meu que fiz pela primeira vez aos 14 anos. Sempre tive boa memória, mas naquela época eu me esforcei para colocá-la inteiramente em ação. Era um verão e eu estava prestes a reencontrar uma prima que, anos atrás, fora minha primeira paixão. Ela nos visitava de anos em anos e, três anos após trocarmos beijos juvenis debaixo do cobertor, ela havia acabado de chegar à casa dos meus avós, onde se hospedaria.
Naquela noite, eu não consegui dormir. Por volta das 4h da manhã, peguei meu cachorro e caminhei 15 minutos em meio à madrugada até a casa da minha avó. Não, não fui fazer nenhuma surpresa matinal ou pular a janela em segredo. Eu apenas fiquei do outro lado da rua e observei tudo ao meu redor. “Eu vou lembrar desse reencontro para o resto da minha vida”, pensei, do alto dos meus 14 anos. “Eu quero lembrar de cada detalhe”.
E até hoje eu lembro. Da rua cujo chão estava sendo asfaltado, mas onde metade da pista ainda exibia os bons e velhos paralelepípedos. Das plantas da minha avó balançando ao vento, o som singelo dos sinos que ela mantinha na varanda e davam àquilo tudo um clima quase de sonho. Do meu cachorro, fiel companheiro que viria a morrer dois anos depois, sentado ao meu lado com metade da língua para fora. Do frescor da madrugada que precedia o calor inclemente das manhãs do verão carioca.
Mas não é dessa memória - e nem dessa paixão - que eu falo no momento. Eu falo dela. Dela, que eu reencontrei depois de tanto tempo. Que eu julgava já ter esquecido. Que, apenas mais de dez anos depois, eu percebi que tinha sido um babaca ao desaparecer sem qualquer despedida. Mesmo que ela jamais tivesse segundas intenções comigo, mesmo que fosse apenas uma boa amiga, eu havia errado. E aquela era o dia de colocar aquilo, e talvez mais, a limpo.
Foram três semanas de tortura comigo mesmo. Desde que achara seu perfil no Facebook e ouvira de um amigo em comum notícias de uma vida triste, seu rosto não me saía da cabeça. Ao menos uma vez por dia, eu pagava uma visita ao seu perfil e mirava aqueles olhos. As fotos, quase todas ao lado da mãe e do filho pequeno, tinham um sorriso fugaz encimado por olhos dúbios, tristes. Eles lembravam-me de mim mesmo. “Você tem um olhar de filhote de cachorro triste, por isso consegue tudo que quer”. “Você parece feliz, mas sempre que para de falar por um tempo, parece ter uns olhos tão tristes”. “Essa cara de pobre-coitado-menino-sofredor é foda de resistir, dá vontade de levar para casa e dar um banho”. Eu já havia perdido a conta de quantas vezes ouvira aquilo das minhas ex-namoradas e ficantes da faculdade. Os dela não eram muito diferentes. Quando ela finalmente apareceu, com sete minutos de atraso, eu pude perceber.
Meu coração parou por uma fração de segundo e depois disparou, como se os sineiros de todas as catedrais que haviam dentro de mim tivessem enlouquecido. Era engraçado como algumas pessoas passavam vidas inteiras sem mudar o jeito de se vestir. Ela ainda parecia com aqueles sábados em que nós nos encontrávamos no curso de inglês: os tênis All-Star, a calça jeans clara, uma camiseta simples - de alcinha, branca e com corações negros estampados - e o cabelo com rigorosamente o mesmo corte. “Talvez por isso que foi tão fácil reconhecê-la, mesmo depois de todo esse tempo”, pensei. Ou talvez eu reconhecesse aquele rosto e aqueles olhos - antes tão vivos e alegres - em qualquer lugar. Eu jamais saberia.
Como qualquer par de amigos que não se vê há milênios, falamos de amenidades no começo. Casei, separei. Sou funcionária pública, ela dizia. O relato do meu amigo, eu descobria agora, não estava perfeitamente certo. Ela não havia se demitido do trabalho, apenas se licenciado por algum tempo. “Fui diagnosticada com depressão”, ela admite, sem muitas delongas ou o constrangimento que tanta gente tem sobre o tema. “Meu casamento estava indo muito mal e eu desabei. Mas agora tá tudo bem”. Não estava, não era necessário ser um especialista para notar aquela tristeza escondida no canto do olhar.
Falei da minha vida para ela também. Contei que a minha ex-namorada que ela conheceu não deu certo e que, naquela época de fim da adolescência e início da vida adulta, eu tinha muita vergonha de falar sobre o que eu passava. Ela praticava gaslighting comigo, tinha crises de ciúme incontroláveis, me fazia sentir um crápula por coisas que eu sequer havia feito. “Você parecia tão feliz com ela”. “Eu finjo bem”, admiti. “E eu tinha vergonha de mostrar para os outros o que passava. Homem dizendo que a mulher é abusiva? Eu não queria que ninguém soubesse”.
Após quase meia hora de amenidades, eu exponho o elefante na sala de estar. Na verdade, quem começa é ela. Quando a adicionei no Facebook, falei que tinha esbarrado com ela na rua e que ficara com vergonha de cumprimentá-la na hora. Mas que queria muito revê-la depois de tanto tempo, tomar um café, falar sobre a vida. “Por que você sumiu?”, ela pergunta, no meio de um daqueles silêncios que duram mais do que deveriam. Eu tremi por dentro, mas não havia como continuar escondendo.
No começo, falei o básico. Que era de família humilde, como ela bem lembrava, e que o parente que pagava meu curso havia descoberto um câncer. Poucos meses depois, eu perdi meu emprego. Tudo isso num intervalo curto, de três ou quatro meses e perto da virada do ano. “Me ligaram do curso e ofereceram um desconto. Eu era pobre, mas sempre fui orgulhoso. Naquela época, era mais ainda. Burrice minha. Se bobear, eles iam acabar me oferecendo uma bolsa”. “Eles iam”, ela responde. “O Francisco - dono do curso - era maluco por você. Você era um ótimo aluno”. Ela dá um gole no mate que pediu. Meu café esfria ao meu lado. “Mas por quê você não falou nada comigo?”, ela continua.
Eu sabia que estava num daqueles momentos em que poderia mudar radicalmente o dia. Porque eu poderia ter mentido. “Eu não falei porque fiquei com vergonha de ter perdido o emprego”. “Eu não falei porque eu estava muito triste: parente próximo com câncer, desempregado, meu relacionamento com uma pessoa abusiva”. Eram mentiras com um pouco de verdade, mas não revelavam o grande problema. Naquele fim de tarde, eu escolhi não mentir. Nem me esconder. E eu já tinha ensaiado essas palavras dezenas de vezes nas últimas semanas.
“Olha, eu não sei se dava para reparar na época ou não. Não sei era muito óbvio, sinceramente. Mas eu era completamente apaixonado por você naquele tempo. Eu passava a semana inteira pensando no dia em que a gente ia se encontrar, trocar uma ideia no curso, caminhar junto até a sua casa. E eu tinha uma vergonha absurda disso. Eu tinha namorada, você tinha namorado e estava para se casar. Então eu achava errado expor aquilo, ser claro. E eu achava que você não gostava de mim. Eu tinha auto-estima muito baixa e esse relacionamento com essa ex-namorada abusiva só piorou as coisas. Eu me sentia um lixo, então achava que você não ia ligar se eu sumisse. Que ninguém ia ligar se eu sumisse. E foi o que eu fiz. Mas, se você quer uma versão curta da resposta, é essa: eu era completamente apaixonado por você naquela época e quis sumir, sair correndo”.
Enquanto eu falava aquilo tudo, a boca dela se abriu em alguns momentos. Às vezes parecia surpresa, às vezes parecia que ela tentaria falar alguma coisa que se perdia no caminho. Eu fazia esforço para olhá-la nos olhos, mas era difícil. Mesmo depois de todos esses anos. Tentei dar a entender com o tom de cada palavra que aquilo era uma coisa do passado, que não me incomodava mais, que agora eu queria apenas revê-la e saber como andava a vida.
O desabafo foi seguido de um silêncio que tornava-se mais pesado a cada segundo. Havia alguma coisa fervendo dentro dela, dava para ver. Foi aí que os olhos dela brilharam mais do deveriam, lacrimejando. Quando vejo aquilo, sinto que o mesmo vai acontecer comigo, mas me seguro. Ela vira o rosto e olha para além da vitrine, onde um ponto de ônibus está lotado com os clientes do supermercado e estudantes recém-saídos de suas escolas, o trânsito lento e infernal. A acústica é tão boa no bar que o caos de fim de tarde do outro lado do vidro parece uma televisão ligada no mudo. Quando ela me olha de volta, vejo que ela não faz qualquer esforço para esconder os olhos marejados.
“E você nunca me contou nada? Nem pensou em me contar?”.
Eu não sei quantos de vocês já ficaram sem notícias de um parente ou de alguém que você ama por muitos anos. Aconteceu comigo uma vez, com uma tia que desapareceu por quase 10 anos no exterior e reapareceu após ser mantida em cárcere privado por um namorado obsessivo. A sensação é estranha. É como descobrir que um livro que você tinha dado como encerrado tinha uma continuação secreta. As memórias de hoje se misturavam com as de 12 anos atrás, da última vez que li esse livro. Ela começou a contar tudo.
Ela, como eu já disse antes, era o meu ideal de felicidade. Casara cedo, tivera filho cedo, empregara-se no serviço público cedo. Era tudo com o que eu sonhava. Eu sempre quis constituir uma família, ter uma vida simples, ter um filho cedo para poder aproveitá-lo ao máximo. Mas a falta de dinheiro e a busca por uma parceira ideal sempre ficaram no caminho, assim como a carreira. O problema é que ela tinha uma vida muito diferente do que eu imaginava, muito mais parecida com a minha à época.
Acho que já deixei claro o quanto eu era apaixonado por ela no passado. Ela não era bonita nem feia, tinha o tipo de rosto que se perde na multidão sem ser notado. Filha de pai negro e mãe branca, era morena e tinha o cabelo liso levemente ondulado, quase até a cintura. Quando éramos adolescentes, ninguém a elegeria a mais bela da turma, mas dificilmente negariam que tinha seu charme. Eu a achava linda.
Mas ela, como eu, era o tipo de pessoa que tinha a auto-estima no fundo do poço. Como eu, também cresceu em um lar bem humilde. Também colecionou desilusões amorosas. E, como todo mundo já sabe, isso te transforma em um alvo perfeito para relacionamentos abusivos. O namorado dela, assim como a minha namorada à época, era muito bonito e manipulador. E ela achava que ele era a única pessoa que gostava dela, o único que lhe daria atenção. E isso fez com que, por anos, ela suportasse tudo que aconteceu entre eles. Traições, brigas, mentiras, chantagens, ameaças de abandono, ciúmes doentios. A história deles dois era tão parecida com a minha história com minha primeira namorada que eu fiquei assustado. Só que, diferente de nós, eles casaram. Eles colocaram um filho no mundo.
Ele só piorou com o nascimento da criança. Ele não era mau com o filho, ela dizia. Era um pai carinhoso, inclusive. Mas o pouco amor e bondade que ele tinha por ela transferiu-se todo para a criança. Vivia para o trabalho, para o filho e para os amigos.
“A gente chegou a ficar sem se falar por meses”.
“Morando na mesma casa e sem se falar?”.
“Sim. Nem bom dia. Nada. Eu me sentia um fantasma”.
Na contramão dele, ela dobrava-se para dentro de si própria. Abandonou a faculdade para cuidar do filho enquanto o marido formou-se com seu apoio fiel. Vivia para o filho e tinha seus problemas conjugais menosprezados pela família. “É coisa de garoto, ele vai melhorar”. “Homem quando acaba de ter filho é sempre assim”. “Vai passar”. Mas não passou, só piorou. As traições recorrentes evoluíram para uma equação desequilibrada de álcool e uma amante fixa no trabalho que ele sequer fazia questão de esconder. Ele anunciou que ia deixá-la, convenceu-a de que era um bom negócio vender o apartamento que eles haviam comprado. Racharam o dinheiro e ele foi viver a vida. Ela voltou a morar com a mãe, agora viúva.
O filho, nitidamente a coisa mais importante daquela mulher, tornou-se a única razão para viver. A pensão que a mãe recebia era baixa, o salário dela também não era bom. A pensão que o marido dava ajudava a manter uma vida extremamente funcional e sem luxos. As roupas eram das lojas mais baratas. Viagens não existiam. O único gasto relativamente alto era com uma escola particular de qualidade para o filho. O resto era sempre no básico.
Contei para ela sobre o meu sonho de casar cedo, de ter uma vida tranquila e estável. Falei que eu admirava muito a vida que ela escolheu no começo, que era a vida que eu queria ter vivido. A grama realmente é mais verde no jardim do vizinho, ao que parece.
“Mas a sua vida parecia tão tranquila, tão perfeita”.
“A minha?”.
“A sua namorada naquela época era uma menina tão bonita, eu lembro dela. Loira, bonita de corpo. Até lembro que ela fazia medicina e ainda era dançarina. Eu achava ela linda, perfeita. E você… você era sempre tão fofinho. Carinhoso e atencioso com todo mundo. Inteligente pra caralho, nem estudava e tinha as notas mais altas em tudo. Todo mundo gostava de você, todo mundo queria ser seu amigo e você nem se esforçava para isso”.
“Eu não lembro disso…”.
“Porque você não se achava bom. Você tinha 16, 17 anos e sentava para conversar de igual para igual sobre cinema e livro com uns professores de 40 e poucos anos. Você parecia fluente conversando com os professores em inglês e espanhol enquanto a gente tentava chegar perto disso. Passou no vestibular de primeira. Você não percebia, mas você era o queridinho de todo mundo. Você não era o garoto malhado bonitão, você era o garoto charmosinho e inteligente que todo mundo gostava. Eu gostava de você também. Gostava mesmo, de verdade. Eu tinha uma paixãozinha por você. Mas eu achava que eu não tinha a menor chance. Eu achava que eu merecia o meu namorado. Que eu era feia, ruim. Que ele estava certo em me falar aquelas coisas”.
“Eu era completamente apaixonado por você”, eu respondo. “Eu pensava em você todo dia”.
Engraçado como as pessoas se veem de maneira tão diferente. Eu me definia de três formas quando a conheci: eu sou gordo, eu sou feio, eu moro num dos bairros mais pobres e violentos da cidade. No dia seguinte, de manhã, eu olharia minhas fotos de 12, 14 anos atrás e me surpreenderia com quem eu via ali. Eu era bonito, só um pouco acima do peso. Com 16 anos, eu já era o barbado da turma antes de barba ser coisa hipster. Na foto do colégio, uma das últimas do terceiro ano, eu parecia tão dono de mim, tão no controle. Eu tinha aquela cara de inteligente e rebelde. Por dentro, eu era completamente diferente. Inseguro, assustado, sem auto-estima alguma e com uma namorada abusiva.
São sete e meia e a noite já começa a cair no horário de verão. Educadamente, uma das atendentes nos indica que a galeria onde o café funciona vai ser fechada em breve. Eu pago a conta e nós ficamos meio perdidos, sem saber o que fazer. Ela ainda tem os olhos inchados, eu também. Os funcionários da loja nos olham de forma surpreendentemente carinhosa, não sei o quanto eles escutaram do desabafo.
Saímos em silêncio do café, ela atendeu a uma ligação da mãe. Minha esposa estava fora do estado e só voltaria dali a alguns dias, então eu estava bem relaxado em relação às horas.
“Não sei se você precisa voltar para a casa por causa do Hugo, mas tem um bar aqui perto que é bem vazio a essa hora. A gente pode sentar pra conversar”, eu digo.
“A gente tem mais coisa para conversar?”. Ela pergunta sorrindo, não vejo nenhum traço de mágoa no seu rosto.
“Claro que tem. Doze anos não se resolvem em duas horas”.
Fomos para um bar pequeno ali perto, um que eu costumava frequentar nos tempos de faculdade. Nos tempos em que eu pensava nela e não me achava capaz de tê-la. Ele pouco havia mudado de 12 anos para cá: a mesma atmosfera que fazia dele aconchegante e levemente depressivo ao mesmo tempo. Era um bar das antigas, com azulejos portugueses azuis e poucos frequentadores. O atendimento era excelente e o preço razoável para a região, mas aquela estética de 40 anos atrás parecia espantar os frequentadores mais jovens. Os poucos que iam lá, no entanto, eram fiéis. Como eu fui no passado.
Nos sentamos no fundo do bar vazio em plena terça-feira e desnudamos nossas vidas um para o outro. “Eu quero saber quem você é”, eu comecei. “A gente falava sobre um monte de coisa, mas eu não sei nada sobre você. Sobre sua família. Sobre sua infância, quem você é. E você não sabe nada sobre mim”. Ela riu. “Você é maluco”. “Não, só quero te conhecer melhor. Compensar por ter sido um babaca há doze anos”.
A conversa foi agridoce. O que mais me assustava era como tínhamos origens semelhantes, desde a família até a criação. Os dois criados no subúrbio do Rio de Janeiro, os dois de famílias humildes que, por conta da pobreza e da necessidade de contar uns com os outros, permaneciam unidas. Primos de terceiro ou quarto grau criados próximos, filhos que casavam e formavam suas famílias nas casas dos pais. Assim como a minha família, a dela investiu tudo que tinha para que ela estudasse em um colégio particular até que eventualmente ela passou para uma escola pública de elite.
Nossas duas famílias tinham essa estranha tradição carioca que mistura catolicismo, umbanda e espiritismo, um sincretismo religioso que eu, como ateu, tenho dificuldade em entender - mesmo tendo crescido nesse meio. Assim como eu, achava-se feia, indesejada na adolescência. Isso fez com que rapidamente trocasse o mundo cor de rosa pelo rock e pelos livros. No meu caso, eu acrescentaria videogames e RPG, mas o resto não mudava muito.
“Na minha escola, tinha muita patricinha, muito playboy. Eu não aguentava eles. E eles sabiam que eu era pobre, então não se misturavam muito comigo”. Contei a minha versão para ela. “Eu gostava de ler, RPG e jogar videogame. Mas eu era muito pobre, fodido mesmo. E isso tudo era coisa de gente com grana na época, né? Então eu acabei ficando amigo dos nerds na época por conta dos gostos comuns. Eu tive sorte, demoraram a perceber que eu era pobre. Eu tenho toda a pinta de gente com grana, essa cara de europeu que engana. Quando perceberam que eu era duro, foi só no segundo grau. Ali eu já era um pouco mais cascudo, tinha bons amigos”. Ela não.
Era tudo tão igual que, em dado momento, eu parei de falar que havia sido igualzinho comigo. Eu esperava ela terminar a parte dela. Falava a minha. E intercalávamos nossas histórias, os dois surpresos com as semelhanças. Provavelmente a grande diferença era a vida dela após ter o filho e abandonar a faculdade. Ela trabalhava em uma repartição pública onde tinha 20 anos a menos do que a segunda funcionária mais nova, se afastou dos amigos. Era estranho conversar com ela. Não usava redes sociais praticamente, apenas para trocar mensagens com parentes distantes e mostrar fotos do filho para eles. Não via séries, não tinha Netflix - só novelas. Não conhecia bandas novas, não era muito de ir ao cinema. Era uma sensação estranha, mas parecia que boa parte da vida dela tinha parado em 2006 ou 2005. Os hábitos dela e poucos hobbies pareciam os de uma pessoa de 50 e poucos anos.
Me doeu imaginar o que poderia ter sido, o que poderíamos ter feito juntos, como poderíamos ter sido bons um para o outro. Pensei na minha esposa, que tem um perfil familiar radicalmente diferente do meu. Ela vem de uma família de classe alta, só com engenheiros e funcionários públicos de elite. O mundo dela era muito diferente do meu, tão diferente que às vezes me assustava. Famílias que não se falavam e que, mesmo endinheiradas, brigavam por herança e cortavam laços de vida por conta de bens que eles não precisavam. Todos católicos ou evangélicos, sem exceção. No máximo um ou outro ateu escondido no armário, como eu.
Essa diferença nos causava estranhezas, pontos de atrito que me surpreendiam. Quando eu elogiava a decoração de uma festa, ela falava do preço e da empresa que a produziu. Ela sentia uma obrigação social em aparecer em eventos familiares ou do círculo social deles, de ser e parecer uma boa esposa. Eu só queria estar onde eu estava afim e quando eu estivesse afim, nunca vi a família como uma obrigação social. Eles discutiam herança entre irmãos com os pais bem vivos, nós nos preocupávamos em fazer companhia à minha mãe quando meu pai morreu. Já era meio subentendido que abriríamos mão de qualquer coisa e deixaríamos tudo para minha mãe, tendo direito ou não.
Havia uma preocupação com patrimônio, normais sociais e aparências que, por muitas vezes, me assustavam. Muitas vezes ela parecia desgastada ou enojada com isso também, mas fazia porque alguém na família tinha que fazer, porque era tradição, porque sempre foi assim. Eu assistia àquilo atônito, impressionado como uma família tão numerosa quanto a minha - com literalmente dezenas de primos e tios até de terceiro grau que moravam em um mesmo bairro - era tão mais simples e unida do que uma dúzia de endinheirados que pareciam brigar por coisas fúteis.
Ela, que estava ali do meu lado, não. Tudo que ela me contava soava como uma cópia fiel da minha família, apenas em escala ligeiramente menor. Pensei em como as coisas seriam simples ao lado dela, despreocupadas, tranqulas. Que eu não passaria a vida sendo julgado pela família da minha companheira como o ex-pobre com pinta de hipster que conseguiu ganhar algum dinheiro, mas não tem muita classe nem é muito cristão, como nos últimos anos.
As palavras que saíram da boca dela depois de uns dois ou três copos de cerveja poderiam muito bem ter sido lidas do meu pensamento. “Você acha que a gente teria sido um bom casal? Que a gente ia se dar bem?”.
“Não tem como saber”, eu respondi. “Mas a gente pode imaginar”. E a gente começou a brincadeira mais dolorosa da noite, imaginando como seria se tivéssemos ficado juntos 12 anos atrás.
“Eu jogava videogame para caralho, você ia se irritar. E eu ia te pentelhar para jogar comigo”, eu comecei.
“Eu gostava de videogame, só não jogava muito. Eu ia te arrastar para show da Avril Lavigne e da Pitty, você não ia gostar”.
Eu sorri. “Eu não tenho nada contra as duas”.
“Britney e Justin Timberlake também”.
“Porra, aí você já tá forçando a barra, amor tem limite”.
Falamos sobre meus primeiros estágios, sobre como eu era maluco e fazia dois estágios e faculdade ao mesmo tempo. Saía de casa às cinco da manhã e voltava às onze da noite. Tudo para conseguir ter uma grana legal, já que na minha área os estágios eram ridiculamente baixos. Ela falava sobre a rotina de estudos para concurso, sobre como foi difícil conciliar a faculdade - que ela eventualmente abandonou por causa do filho - com o recém-conquistado emprego público. Eu falava do meu início de carreira, que foi bem melhor do que eu jamais imaginara, como subi rapidamente. Como eu achava estranho ganhar a grana que eu ganhava - que não era nada extravagante, garanto - mas meus hábitos simples faziam com que eu mal gastasse metade do salário. Ela falava da depressão que tomou conta dela ao perceber que estava num emprego extremamente burocrático e ineficaz, deixando-a incapaz de buscar outras alternativas. Falamos sobre a morte dos nossos pais, que parecem ter conspirado para falecer no mesmo ano.
Em algum momento, a cabeça dela repousou no meu ombro. Eu não soube o que fazer. Pensava apenas na minha esposa, em jamais ter traído ela nem nenhuma outra mulher. Foi aí que eu percebi que ela chorava e, novamente, eu chorei também.
“É engraçado a gente ter saudade de algo que a gente não teve”, eu disse, lembrando de um livro que eu li há muito tempo.
“Acho que a gente seria um casal do caralho”, ela disse, com um inesperado sorriso entre as lágrimas.
“Ou talvez a gente se detestasse e desse tudo errado, a gente nunca vai saber”.
“A gente nunca vai saber”, eu repeti, mentalmente. Como um vírus, a ideia se espalhou dentro de mim rapidamente. “Eu posso fazer uma diferença na vida dessa mulher, na vida do filho dela, na própria família dela. Eu posso ter uma vida mais tranquila ao lado dela, sem essas picuinhas de família rica. Minha esposa pode encontrar um homem muito melhor para ela. Um cara rico, cristão e que tenha a classe e pose que a família dela tanto quer. Isso pode acabar bem para todo mundo”.
Mas não podia. Lá no fundo, eu sabia que não podia. Eu tinha quase uma década de história com minha esposa. Eu tinha um casamento plenamente feliz atrapalhado por alguns poucos problemas familiares e inseguranças minhas. Tínhamos uma química ótima, gostos parecidos para livros e filmes, nos dávamos bem na cama. Valia a pena jogar aquele relacionamento tão bom e funcional - algo que me parece cada vez mais raro hoje em dia - por uma aventura fugaz? Um remorso do passado? Em um relacionamento com uma estranha que eu estava voltando a conhecer havia algumas horas?
“Você nem a conhece”, dizia a cabeça. “Ela é igual a você”, dizia o coração.
No fim das contas, eu segui a cabeça. Conversamos até quase dez da noite. Pegamos um Uber e fiz questão de deixá-la em casa, um prédio pequeno em um bairro abandonado do subúrbio. Quando o carro parou, ela se demorou um pouco do meu lado e, por impulso, eu segurei a mão dela. Ela me encarou assustada e ansiosa. Eu pensei em beijá-la, em ligar o foda-se e jogar tudo para o alto ali mesmo. Mas eu só desci do carro com ela na rua deserta e caminhamos juntos para dentro do prédio, sem saber exatamente o que a gente estava fazendo. Pedi para o motorista me esperar e disse que depois acertava uma compensação com ele.
“Eu vi o seu Facebook. Você é casado com uma mulher linda. E inteligente. Você não vai me trocar por ela. Nem eu quero acabar com o seu casamento”.
“Você acha ela linda e inteligente?”.
“Você sabe que ela é”.
E então eu desabafei. Falei que passei as últimas semanas reavaliando meu casamento e meu futuro, encarando a foto dela no Facebook de tempos em tempos. Que meu coração quase parou quando encontrei-a pela primeira vez. Que eu gostava de tudo nela. Da dedicação como mãe, da simplicidade, dessa aura de pessoa correta que ela exalava sem fazer esforço, desse espírito suburbano e familiar que ela tinha. Dos olhos dela, tão animados no passado e tão tristes agora. De como eu estava me segurando para não beijá-la naquele dia todo.
“Você é linda. Eu sei que você se acha feia, eu sei que você acha que ninguém vai se interessar por você. Mas você é uma mulher foda, e nem preciso subir para saber que você é uma mãe foda, uma filha foda. Não deixa a vida passar. Eu tenho certeza que tem mais gente que, igual a mim, já percebeu isso em você e não sabe como falar. Não faz de novo a mesma coisa que a gente fez lá atrás. Eu só queria que você soubesse disso porque eu acho que você merece ser muito mais feliz do que você é agora. E você não tem ideia de como você me deixou maluco esses dias todos. Eu sou bem casado com uma mulher linda sim, mas só de encontrar você eu tive vontade de jogar tudo para o alto”.
Foi um monólogo mais longo do que eu esperava. De novo, ela chorou. Dessa vez, eu contive as lágrimas. O abraço que partiu dela foi um dos melhores e mais tristes que já ganhei na minha vida. Havia ali uma história de amor não vivida, saudades de uma história que jamais colocamos no papel, de um mundo que nunca existiu. Ela me apertou forte e eu sentia minhas mãos tremerem.
Encostamos as laterais do rosto um do outro, aquele prenúncio de um beijo adiado. E que tive que usar todo auto-controle do mundo para manter adiado. Me afastei, olhei nos olhos dela, sorri e fui embora. Quando o Uber saiu, ela ainda estava parada na portaria e minhas mãos ainda tremiam.
Eu não sei se essa história acaba aqui ou não. Mas eu tenho quase certeza que sim. Algum dia eu vou contar tudo isso para a minha esposa, mas vou esperar esse sentimento morrer primeiro. Eu conheço ela o suficiente para saber que, em um bom momento, ela não ficaria triste com essa história. Eu até consigo imaginar a reação dela, repetindo a frase que ela me diz desde que a gente casou. “Eu te conheço. Você não vai me trair com alguma gostosona oferecida por aí. Se alguma coisa acontecer, você vai se apaixonar por alguém. Eu te conheço, você é romântico. Mas a gente se resolve”.
Quando cheguei na minha casa vazia, sentei e escrevi quase tudo isso de uma tacada só. Sem revisão, sem pensar muito. Eu acho que eu poderia escrever dezenas de páginas sobre os detalhes da conversa, mas isso aqui já está longo demais. Antes de dormir, eu vejo que tenho uma mensagem no Whatsapp.
“Foi muito bom encontrar você”.
Toda aquela tentação de falar algo mais grita dentro de mim, se debate.
“Foi bom te ver também :) “.
Por via das dúvidas, coloquei o celular em modo avião e suspirei. “Eu tô feliz ou triste?”, me perguntei. Parece uma pergunta simples e relativamente objetiva, mas eu não soube responder. Eu custei a dormir, com medo de sonhar com ela. Quando eu acordo no dia seguinte e me preparo para ir ao trabalho, a impressão que eu tenho é de que tudo foi um sonho. Vê-la, reencontrá-la, chorar, abraçá-la.
E, como quando a gente acorda de um sonho triste, eu volto a viver minha vida normal para esquecer. Hoje tem reunião com cliente. À noite, preciso pegar minha esposa no aeroporto.
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Mais um ano desperdiçado

Quando chegou o final do ano passado eu tinha algumas coisas que desejava fazer esse ano. A três semanas de acabar o ano, não fiz nenhuma. Algumas eu cheguei a esboçar um início, outras ficaram só na mente. Esse ano foi um desastre. Desastre maior do que os anos anteriores.
Como a faculdade representa grande parte da minha vida atual, falemos dela. Comecei o 1º semestre com 6 matérias, 2 que eu nunca tinha feito e 4 antigas. Assim como em semestres anteriores, fui deixando uma de lado aqui, outra ali, e na metade do percurso já tinha abandonado 3. Das restantes, em 1 eu estava estudando, a 40% da minha capacidade, e as outras 2 fazendo o mínimo de esforço. No final das contas passei em 1, justo uma do mínimo esforço, mas era uma matéria do 1º termo que eu estava fazendo pela terceira vez, com uma professora que pegou leve - eu consegui tirar 10 em uma das provas estudando por 30 minutos no horário do almoço (a aula era à tarde). Mas o que me incomodou foi a que eu estudei. Faltei em duas ou três aulas só, fiz dezenas de exercícios, pedi ajuda para tutora (e sim, 40%, pois poderia ter estudado de maneira muito mais eficiente). Tudo isso e o máximo que eu consegui foi tirar 6 numa prova (média 6), nas outras menos ainda. Eu comecei as férias com uma raiva do caralho por causa disso. Agora no segundo semestre foi pior ainda. Comecei com 7 matérias, 1 que eu nunca tinha feito, o resto tudo repetido, algumas pela terceira vez também. Larguei uma aqui, outra ali, pera ainda dava pra tentar recuperar, ah, mas vamos abandonar essa outra, hm, e essa aqui também... nem sei. Acho que em duas eu não reprovo por falta, pelo menos, mas não passei em nenhuma. Pois é, consegui o incrível feito de reprovar um semestre inteiro. No acumulado, foram 3 aprovações nos últimos 2 anos - 0 nesse semestre e 1 nos outros. No lado social as coisas foram tão produtivas quanto. Já estava distante dos amigos que tinha feito quando entrei lá - se nos encontrarmos nós até conversamos, mas são poucas as vezes em que isso acontece e eu nunca me senti muito confortável perto deles. O menino que era meu melhor amigo até então (já que meu antigo melhor amigo já tinha saído de lá havia uns meses) saiu da faculdade depois do fim do ano passado. No começo eu pensei "ah, não vai fazer tanta diferença, eu já passava a maior parte do tempo sozinho mesmo". Boy, was I wrong. Um dia, na saída, vi um cara parecido com ele no ponto de ônibus. Por 2 segundos o mundo pareceu menos sombrio, até que percebi que não era ele. Quase que eu comecei a chorar ali no meio da multidão. Daí percebi a falta que ele estava fazendo. Nunca tinha me sentido tão solitário lá. Quase consegui fazer alguns amigos novos lá -2 no primeiro semestre e 1 no segundo-, mas, né, claro que não ia conseguir ter uma amizade verdadeira. Então foi basicamente assim que transcorreu o ano em que termino mais afundado em matérias, mais isolado socialmente e com menos vontade de estudar desde que comecei a faculdade.
E fora da faculdade? Bom, não faço atividade nenhuma, fiz um esforço quase nulo nas coisas que eu tinha planejado, a relação com a família continua igual. As coisas estão mais pra monótonas do que ativamente ruins. Não tem muito o que comentar sem que seja mais privado.
Só sobra o mundo virtual. Curiosamente, conversei com mais pessoas no reddit esse ano do que jamais tinha conversado antes. Foi uma das poucas coisas que me fizeram sentir bem, mesmo que por pouco tempo. Em compensação, envolveu muito sentimento de culpa também, pois eu sempre acho que estou atrapalhando as pessoas mais do que ajudando e sempre acabo achando que seria melhor se eu não tivesse falado com elas pra começar. Me reconectei com uma amiga bem antiga, que estava a uns 2 ou 3 anos sem ter contato. Acho que foi um dos pontos altos desse ano. Mantive a amizade com algumas pessoas, apesar de ter tido alguns momentos complicados.
E na parte psicológica tudo desandou também. Autoconfiança, motivação, autoestima, etc., foram todos pro ralo. Teve épocas que eu não conseguia ficar um dia sem pensar em suicídio, geralmente estava voltando pra casa de boa e daí me imaginava com uma arma apontada pra cabeça, pronto pra acabar com tudo; ou então pensava em como as pessoas reagiriam dependendo de cada cenário... na faculdade? em casa? num canto isolado da cidade? Já fazia uns 4~5 anos que eu não ficava tão mal. Coisa de um mês e meio atrás eu comecei a sentir uma raiva/ódio generalizado, que eu preferi me afastar dos amiguinhos virtuais para não descarregar isso neles injustamente, daí acabei mais solitário ainda kkk Tive muitas ideias de comportamentos auto destrutivos, especialmente nesse final de ano, quase que decido abraçar todas, afinal, se é pra ir pro fundo do poço tem que ir com estilo. Mas mantive parte do resto de sanidade que tenho.
Enfim, agora começa o limbo entre fim de aulas e as festas de Natal/Ano Novo. Época pra tentar tirar essas coisas da cabeça e tentar ter pelo menos um pouquinho de felicidade nesses dias finais.
Não sei se o texto ficou muito coeso, pois precisava mais organizar os pensamentos do que explicar as coisas bonitinho, então é isso. Desculpa pra quem perdeu tempo lendo tudo, espero que você esteja melhor do que eu.
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ARS LUDI, West Marches e a exploração nos RPGs

Boa tarde, galera! Esse tópico aqui serve para dar início a uma série de traduções (e, com sorte, discussões) do West Marches, um experimento grandioso da Ars Ludi no universo dos RPGs. Antes de iniciar com o texto propriamente dito e traduzido, alguns pontos que merecem destaque!
O QUE É A ARS LUDI?
O ARS LUDI é um blog majoritariamente voltado a discussões sobre o RPG e suas práticas, inovações e lugares comuns. O autor é ninguém menos que Ben Robbins, a mente por trás de Kingdom RPG e Microscope (este último uma mistura incrível de RPG e ferramenta de criação conjunta de mundos).
O QUE É WEST MARCHES?
Embora a idéia seja responder isso com a tradução, West Marches é, de maneira simplificada, um RPG focado na exploração de uma fronteira selvagem, com sessões curtas e a possibilidade de diversos grupos e mestres compartilhando um mesmo universo.
QUAL O SISTEMA?
Em idealização, o West Marches tem certa neutralidade de sistema. O experimento da Ars Ludi foi realizado com um sistema específico; no entanto, todo o cenário é passível de adaptação para qualquer modelo de RPG, seja D20, D6, STORYTELLER ou outros.
Início da tradução

Grandes Experimentos: West Marches

West Marches foi um jogo que narrei por pouco mais que dois anos. Ele fora arquitetado para ser quase como um completo oposto de um jogo semanal tradicional:
  1. Não havia horários ou datas marcadas: todas as sessões eram marcadas pelos jogadores conforme surgisse a necessidade.
  2. Não havia um grupo regular: todo jogo continha diferentes jogadores, vindos de um grupo maior por volta de 10 a 14 pessoas.
  3. Não havia uma trama tradicional: os jogadores decidiam para onde ir e o que fazer. É um ambiente livre no mesmo sentido que se usa para descrever um jogo como Grand Theft Auto (GTA), mas sem as missões. Não havia um velho misterioso os mandado executar tarefas. Nenhuma trama ligando a tudo, apenas um ambiente.
Minha motivação para organizar as coisas dessa maneira fora tentar superar a apatia de jogadores e o seguimento sem pensar de uma trama ao colocá-los no comando tanto do controle dos horários e dias das sessões quanto do que estariam fazendo dentro do jogo.
Um objetivo secundário para esse experimento foi tornar os horários e dias das sessões adaptáveis aos complexos cronogramas dos adultos. Marcar as sessões sob demanda e um grupo de jogadores flexível significaria (idealmente) que as pessoas jogariam quando pudessem mas não atrasariam os jogos para os outros quando não comparecessem. Se você pudesse jogar uma vez por semana, ótimo; se apenas uma vez por mês, ótimo também.
Deixar os jogadores decidirem para onde ir também fora pensado como um modo de lidar com a procrastinação do mestre (lê-se minha procrastinação) na ocasião. Normalmente, um mestre atrasa um jogo até ele encontrar-se 100% completo (o que, as vezes, é nunca), mas com o jogo estabelecido dessa maneira, se alguns jogadores quisessem explorar o Forte Submerso durante o final de semana eu deveria me apressar e finalizá-lo. Era uma jogatina sob demanda,logo, os jogadores me ofereceriam prazos finais.
AMBIENTAÇÃO: VÁ PARA O OESTE, JOVEM
O jogo fora ambientado em uma região de fronteira, nos limites da civilização (as famosas West Marches). Há uma cidade fortificada convenientemente localizada na fronteira, que é o mais longínquo entreposto da civilização e justiça, mas, para depois disso, tudo é dominado por terras selvagens. Todos os personagens seriam obrigatoriamente aventureiros sediados nessa cidade. Aventurar-se não é uma profissão segura ou comum, o que torna os personagens de jogador os únicos dispostos a arriscar suas vidas além da fronteira com a esperança de fazer uma fortuna (NPCs aventureiros são poucos e raros). Entre as investidas nas terras selvagens, os personagens descansam, trocam informações e planejam sua próxima incursão nas incríveis terras e trilhas inexploradas.
Todo o território é (por necessidade) muito detalhado. O cenário é dividido em várias regiões (Pântano dos Sapos, Berço de Madeira, Vale Pontiagudo, etc) cada uma com seus tons, nuances, ecologia e ameaças particulares. Existem masmorras, ruínas e cavernas por todo o lugar, algumas grandiosas e várias delas pequenas. Algumas são pontos de referência (todos sabem onde o Forte Submerso é), existem rumores sobre outras cuja localização é inexata (diz-se que o Salão dos Reis é em algum lugar no Berço de Madeira) e outras são completamente desconhecidas e descobertas apenas por meio da exploração (procure nas florestas infestadas por aranhas e você encontrará o Ninho do Monte das Aranhas).
Os personagens podem explorar onde quiserem, a única regra sendo que voltar para o leste é proibido - não há aventuras nas terras pacíficas, apenas a aposentadoria.
A ambientação é perigosa. Muito perigosa. Isso é intencional, porque como o MUD Nexus nos ensina, o perigo une. Personagens tem que trabalhar em equipe ou serão derrotados. Eles também devem pensar e escolher suas batalhas - como podem ir para qualquer lugar, nada os impede de perambular por áreas nas quais serão obliterados. Se eles apenas prepararem suas espadas e avançarem contra tudo que enxergam, logo estarão criando novos personagens. Os jogadores aprendem a observar seu ambiente e adaptar-se - ao encontrar rastros de ursos coruja, os jogadores retornam e deixam a área em paz (ao menos até conseguirem alguns níveis). Ao tropeçar no lar de uma terrível hidra, eles retornam e organizam uma grande caçada.
Os personagens são fracos mas indispensáveis: eles são peixes pequenos em um mundo perigoso que devem explorar com cautela, mas, sendo os únicos aventureiros, eles nunca estão em segundo plano. À sombra de grandiosas montanhas e aterrorizantes florestas, sim; à sombra de outros personagens, não.
HORÁRIOS: OS JOGADORES NO CONTROLE
A cartilha de West Marches diz que os jogos somente acontecem quando os jogadores decidem fazer algo - os jogadores dão início a todas as aventuras e é seu trabalho marcar os jogos e organizar um grupo assim que decidirem onde ir.
Jogadores trocam mensagens em uma lista dizendo quando querem jogar e o que planejam fazer. Um email normal para marcar uma sessão seria algo como "Eu gostaria de jogar na terça. Eu quero voltar e dar uma olhada no monastério em ruínas que ouvimos sobre após as Colinas Douradas. Eu sei que o Mike quer jogar, mas gostaríamos de mais um ou dois jogadores. Quem se interessa?" Jogadores interessados se disponibilizam e então começam a negociar. Jogadores podem sugerir datas diferentes, lugares diferentes ("Eu estive no monastério e é muito perigoso. Vamos caçar a bruxa no Vale Pontiagudo ao invés disso!"), entre outros - é um processo caótico, e os detalhes se arranjam dessa maneira. Em teoria isso simula o que estaria acontecendo em uma taverna no mundo do jogo: aventureiros discutem seus planos, encontram companheiros, trocam informações, etc.
As únicas regras fixas para agendar sessões são:
  1. O mestre deve estar disponível no dia (obviamente), logo o sistema apenas funciona se o mestre possuir horários flexíveis.
  2. Os jogadores contam ao mestre sobre aonde planejam ir com antecedência, de tal modo que ele (significando eu) tem ao menos uma chance de preparar o que falta. Conforme a campanha avança, isso se torna um problema cada vez menor, pois muitas das áreas estarão tão definidas que os jogadores poderão ir para qualquer lugar no mapa e esbarrar em uma aventura. O mestre também pode vetar um plano que soa completamente chateante e sem potencial para uma sessão.
Todas as outras decisões estão sob controle dos jogadores, e eles irão brigar por isso - vez ou outra, literalmente.
Término da Tradução
É uma leitura e tanto, não é não? Então, eu gostaria de saber quais as opiniões de vocês sobre a idéia geral, problemas que imaginam que seriam encontrados (e possíveis soluções) ou ainda coisas que acham bem executadas. Particularmente, eu adorei a proposta, e acabei narrando com sucesso algumas poucas sessões presenciais para amigos.
Abraços e fiquem no aguardo para a próxima parte da tradução!
EDIT: Parte 2 de 4 do núcleo principal aqui!
Texto Original
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